Opinião: A (in)visibilidade da violência contra as mulheres

O Brasil ainda tem uma grande dificuldade em diminuir os casos de violência contra as mulheres

Nos últimos anos, o feminicídio ganhou um grande destaque nas manchetes nacionais. A violência contra a mulher acabou ganhando mais frequência nas páginas dos jornais que outros assuntos e a forma como os meios de comunicação abordam esse tema precisa ser analisada.

Sancionada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2006, a Lei 11.340/06, conhecida como Lei Maria da Penha, é considerada pela ONU como uma das três melhores legislações do mundo no enfrentamento à violência contra as mulheres. Mas a lei somente é citada nos jornais quando se trata de casos de violência contra mulheres adultas. Os demais tipos de violências, sofridas por crianças, adolescentes e idosas, são esquecidas e não existe nenhuma citação sobre políticas públicas para esse grupo.

Os jornais acabam dando pouca (ou nenhuma) importância sobre os problemas que são gerados com essa violência, mostrando um certo descuido sobre o assunto ou até fazendo isso de propósito. O descuido começa quando os jornais não mostram como esse assunto é importante e ficam somente na superficialidade dos casos. Dessa forma tornam os casos de feminicídio somente um caso qualquer dentre outros homicídios.

Segundo Geysa Fernandes em seu artigo Mulher na Mídia, as consequências não envolvem somente a mulher violentada, mas também a família e que o discurso utilizado na maioria das notícias dos jornais ao relatar os casos de feminicídios minimizam ou acabam dando um tom de desprezo, sendo apenas descritivos, onde se evidencia um agressor, uma vítima e uma ação hostil, igualando a violência de gênero a outros tipos de violência.

Outro exemplo é a notícia publicada no jornal maranhense Jornal Pequeno com a chamada “Mulher é assassinada pelo ex-marido em Balsas”, em apenas dois parágrafos o feminicídio foi noticiado como um homicídio qualquer, a notícia ainda evidencia ainda que a vítima era usuária de drogas, em nenhum momento da matéria, o jornal dedicou um espaço para informar como evitar ou em que tipificação se encaixar esse homicídio.

Segundo o Monitor da Violência, o Brasil ainda tem uma grande dificuldade em diminuir os casos de Violência contra as mulheres. Entre 2017 e 2018 foram 4.254 vítimas. Essa marca diz respeito apenas aos casos registrados oficialmente, onde podemos concluir que este número pode ser ainda maior. Segundo o Escritório das Nações Unidas para Crime e Drogas, a taxa no Brasil é de 4 mulheres mortas para cada grupo de 100 mil, sendo 74% superior à média mundial, que é de 2,3 mortes a cada 100 mil mulheres. O Brasil como um dos países mais violentos para as mulheres.

Existe também na mídia o descuido em explicar melhor como a lei funciona, pois muitos a desconhecem e a resumem somente a casos de brigas entre companheiros. A proposta da Lei Maria da Penha vai além, uma vez que presume a “eliminação de todas as formas de discriminação contra as mulheres”, previne e pune qualquer tipo de violência contra a mulher e não se limitando ao feminicídio ou a violência física ou sexual. O desconhecimento da lei é evidente e muitos leitores não sabem que ela pode ser aplicada em outras situações. Quando os jornais não noticiam essas outras informações, acaba perdendo sua principal função: informar as pessoas e constituir cidadania.

No cenário local, jornais diários dão muita atenção a alguns tipos específicos de violência contra as mulheres, a exemplo das as violências físicas e sexuais. Apesar dos 13 anos da Lei, não houve uma grande mudança de abordagem desses veículos. Como aconteceu com a notícia sobre a morte de Elielma de Castro Serejo, morta a tiros de espingarda pelo marido em Santa Rita. A notícia foi veiculada ao Jornal Itaqui Bacanga com a chamada “Mulher é morta pelo Marido em Santa Rita”. Em nenhum momento, o jornal se preocupou em dar mais informações sobre a Lei Maria da Penha. Casos aparentemente menos graves, como violência verbal e moral, são esquecidos ou simplesmente ocultados dos meios de comunicação.

Esse tipo de mídia que busca alcançar o maior número de leitores, acaba menosprezando a violência contra a mulher. Para José Arbex Jr, no texto Uma Outra Comunicação é possível (e necessária), quando a mídia “trata as notícias como ‘produtos’ sujeitos à ‘lei do mercado’, a mídia recorre ao sensacionalismo” (p. 385, 2003). A disputa comercial, feita de forma camuflada, a destaque aos casos de violência contra as mulheres, mas somente enfatiza às notícias mais trágicas e apelativas, deixando de lado a contextualização dessa violência, tal descuido e a ausência de informação reduzem a violência de gênero a mais um caso policial qualquer.

As mídias deixam de lado a obrigação de noticiar sobre políticas públicas que podem servir no combate à violência em muito dos casos, sequer mencionam os contatos para denúncias. Mesmo se esforçando em passar uma imagem imparcial e democrática, é visível o descuido em noticiar esse tema, explicitando somente para alcançar um objetivo, o lucro.

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1 comentário

  1. Milhares de anos sob este espectro do machismo que historicamente justifica até religiosamente este tipo violência. Este ano trabalhei por 3 meses um poema que fiz sobre o tema com meus alunos de 6º e 7º anos. Foi um trabalho muito bacana, pois chegou até muitas mães que se envolveram nas atividades. Caso tenhas interesse segue o link do poema: Clam-ores femininos. Paz e Bem!
    https://estevamweb.wordpress.com/2018/03/08/clamores-femininos/

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