Protagonismo como arma contra o preconceito – Parte 1

A representatividade é a chave para uma sociedade igualitária.

As mulheres ganharam nos últimos anos mais espaço social. Historicamente, foram ensinadas a ocupar os espaços privados, como serviços domésticos e cuidar das crianças, enquanto o espaço público era dominado pelos homens. Embora ainda exista desigualdade , a representatividade torna mais comum a presença das mulheres nos ambientes sociais.

A representatividade feminina garante os direitos que as mulheres conquistaram e é uma defesa para uma sociedade mais igualitária. A criação de modelos femininas inspira outras mulheres e diversifica ainda mais a pluralidade de ideias. Quando a mulher se olha representada, sente que ganha voz e direitos, principalmente quando são em espaços como política, mídia e posições importantes dentro de uma corporação.

Representatividade na política

Na política, a bancada feminina ganhou novas representantes. Na Câmara, o número subiu de 51 para 77 deputadas, o que representa 15% das cadeiras, sendo que 43 das deputadas ocupam pela primeira vez o cargo de deputada federal. Estados como Maranhão, Sergipe e Amazonas não elegeram nenhuma mulher enquanto estados como São Paulo elegeram 11 mulheres na bancada de 70 deputados.

Mesmo ocupando 15% das cadeiras, ainda há muito o que conquistar. A média nos países latino-americanos e do Caribe nas Câmaras de Deputados e Câmaras Únicas é de 28,8%. O Brasil ainda continua abaixo da média na América Latina, ocupando 154ª posição em ranking de participação de mulheres no parlamento elaborado pela ONU Mulheres em parceria com União Interparlamentar (UIP) em 2017, que analisou 174 países.

No Senado, a bancada feminina ocupa 12 cadeiras, correspondendo a 14,8% do total de 81 cadeiras. O percentual é bem baixo se comparada à proporção de mulheres na população brasileira, em que elas são mais da metade. As mulheres chegam a 52% dos eleitores brasileiros. O aumento da bancada feminina foi graças à Emenda Constitucional nº 97/2017, que obriga cada partido a indicar no mínimo 30% de mulheres filiadas para concorrer no pleito. A representatividade feminina na política é importante para que alguns temas sejam colocados em discussão, como a violência doméstica e a igualdade familiar.

Podemos destacar a deputada federal de Minas Gerais Áurea Carolina, do PSOL que foi eleita uma das 100 jovens negras mais influentes do mundo na política pela Most Influential People of African Descent (Pessoas Mais Influentes dos Afrodescentes – Mipad). A Mipad é uma ONG que identifica os grandes empreendedores afrodescendentes em público e setores privados de todo o mundo. Áurea Carolina, além de mulher, é negra e foi a quinta deputada mais votada com 162 mil votos, e a primeira entre as mulheres na eleição de 2014. Sua representatividade acaba dando mais destaque às lutas da mulher negra e encoraja crianças e jovens a ocupar os espaços políticos. Conforme o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), deputados negros ainda ocupam um número muito inferior, chegando a 4,09% das cadeiras contra 75% das cadeiras ocupadas por brancos.

Em Roraima foi eleita a primeira mulher indígena do Brasil. A Joênia Wapichana, da REDE, luta pelos direitos indígenas e os receios dentro da comunidade Wapichana sobre demarcações de terras. Ela terá um esforço maior na luta pelos seus direitos quando o governo anterior acabou com mais de 300 cargos da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), órgão do governo que promove estudos de identificação e demarcação das terras indígenas; e o governo atual, do presidente Jair Bolsonaro, já se posicionou contra as demarcações indígenas. A deputada estudou Direito e terminou o curso em quatro anos, quando no mínimo são cinco. Joênia Wapichana, além de ser a primeira deputada mulher indígena, é também a primeira advogada indígena do Brasil.

Já em São Paulo, Erica Malunguinho da Silva, do PSOL, foi eleita a primeira deputada estadual transgênera. A deputada é mestra em estética e história da arte pela Universidade de São Paulo (USP) e criadora da Aparelha Luzia, um quilombo urbano, espaço para fomentar produções artísticas e intelectuais na capital de São Paulo. Erica ganhou o cargo com mais de 54,4 mil votos. Erica é símbolo de força e de luta em um país que mais mata transexuais, conforme a ONG Transgender Europe. A organização calculou um total de 369 homicídios de transexuais e indivíduos não-binários. Segundo a Transgender Europe, muitos dados sobre pessoas transexuais assassinadas não são especificados em boa parte do país, possibilitando assim que o número real deva ser muito maior.

Representatividade na mídia

Um estudo feito pela agência Heads Propaganda mostra que entre mais de 3 mil comerciais exibidos na TV brasileira, apenas 26% dos protagonistas eram mulheres, sendo que, entre as personagens, 84% eram brancas e 62% tinham cabelo liso. Existe uma resistência que impede que certos grupos sociais não ganhem tanta visibilidade. Mulheres negras, transexuais e indígenas, por exemplo, possuem poucas aparições em comerciais e dificilmente ganham personagens de destaque em novelas, filmes e séries.

A pesquisa mostra como ainda existe um abismo na equidade de gênero. O abismo ainda é maior quando falamos de negras e transexuais. Na publicidade, a mulher acaba ainda sendo objetificada, como nos famosos comerciais de cerveja, por exemplo. Com a popularização do feminismo, dando assim muita mais voz para as mulheres, essa situação vem mudando. Algumas marcas, como Nike e Microsoft, já fazem comerciais destinados ao público feminino quebrando estereótipos e combatendo padrões de beleza inatingíveis.

Durante os 50 anos de Jornal Nacional, somente em 2019 uma mulher negra assumiu a função de âncora. Maria Júlia Coutinho, conhecida como Maju, em 2015 foi alvo de comentários racistas em uma rede social do Jornal Nacional, mostrando como o racismo e o machismo ainda são muito presentes no Brasil. A jornalista começou como repórter do Jornal Nacional, depois passou a apresentar a previsão do tempo e agora assumiu a bancada de um dos telejornais mais reconhecidos do país.

No cinema, nos últimos anos o universo dos super-heróis ganhou muito destaque e as mulheres finalmente ganharam um lugar, sendo protagonistas de suas próprias histórias. Um exemplo é o filme solo da Mulher-Maravilha, que arrecadou 821 milhões de dólares na bilheteria, e o filme solo da Capitã Marvel, que arrecadou 1,123 bilhões de dólares. Uma pesquisa feita pela BBC mostrou que 85% das meninas querem ver mais super-heroínas no cinema. A pesquisa mostra a importância da imagem feminina em personagens de destaque nas telas do cinema.

Essa reportagem faz parte da Revista Dandara e teve a participação de Janilson Silva, Samuel Reis, Talila Frazão e Thárcila Castro. Ela será apresentada nesse blog em 5 partes.

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