Protagonismo como arma contra o preconceito: para ser ouvida, é preciso ser vista – Parte 5

Ser mulher no Brasil já não é fácil, ser mulher e surda, então? Nem se fala né? A realidade dos surdos em nosso país não está nada bem, seja em educação, saúde, mercado de trabalho, acessibilidade, entre outras áreas. As mulheres que têm essa condição (surdez), além de serem marginalizadas, ainda enfrentam as desigualdades de gêneros impostas por nossa sociedade machista e sexista.

Maria do Carmo pertence a essa minoria. Ela tem 58 anos e é casada com um homem que também é surdo. Ela se comunica a partir da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), que é a língua oficial das comunidades surdas no Brasil, sancionada pela Lei 10.436, de 24 de abril de 2002 que a reconhece como meio legal de comunicação e expressão. Ela tem um filho ouvinte que a ajuda em todas as atividades do dia a dia. Quando vai ao médico, tem que ir acompanhada com o filho, pois não tem intérprete de libras que possa ajudá-la para repassar as informações dadas pelo profissional de medicina: “quando eu vou para o hospital não tem ninguém pra me ajudar. Ninguém sabe Libras!”. Seu único filho se chama Bruno, ele é ouvinte e tem como língua materna o Português e a Libras.

Maria do Carmo conta que, quando mais nova, estudava no colégio Raimundo Corrêa. Não tinha intérprete para ajudá-la. Ela conta que aprendeu libras com um aluno surdo que estudava com ela: “depois encontrei um surdo e fui aprendendo libras pouco a pouco. Ele sabia libras e ensinava para várias pessoas… Foi a primeira pessoa que me ensinou Libras.” Se em uma sala de aula houver uma pessoa surda, é obrigatória a presença de um intérprete nesse ambiente. A Lei n° 12.319, de 1° de setembro de 2010, regulamenta a profissão de tradutor e intérprete de Libras, sancionada pelo Congresso Nacional. A presença desse profissional para o desenvolvimento do aprendizado do (a) aluno(a) surdo (a) é de suma importância. Em alguns lugares, ainda há a carência desses profissionais mesmo com uma demanda de alunos.

As pessoas surdas vêm sofrendo com o precAonceito e a falta de conhecimento de ouvintes desde a antiguidade. Na Grécia, na Idade Antiga, as pessoas surdas eram tratadas e vistas como seres irracionais, já que não se comunicavam através da fala. Eram excluídas da sociedade e muitas vezes condenados à morte. Aristóteles pregava que o principal meio para atingir a consciência humana era através da audição; excluindo, assim, os surdos e proliferando por muito tempo a ideia de que este não podia se desenvolver (Aristóteles acreditava também que um surdo não podia falar). Em 1880 foi proibido o uso da Língua de Sinais na Europa. Em 1881, a proibição chegou ao Brasil. A comunicação só podia ser feita através do método oral (oralismo). Muitos surdos foram perseguidos nessa época, pois ainda se comunicavam através da Libras. Sem falar das chamadas “escolas especiais” onde alunos que tinham algum tipo de deficiência eram colocados em uma sala, separados doas alunos considerados “normais”.

Hoje, a discriminação ainda é presente na vida dessas pessoas. Maria do Carmo revela que já sofreu preconceito em ônibus. Conta que as pessoas começavam a sorrir quando ela se comunicava. Ela também passou por maus bocados na escola. Houve um dia em que ela precisou usar sua força física para tentar se defender dos ataques que recebia: “Eu já meti a mão em cima de um cara há muito tempo. Eu bati nele, porque eu não tenho medo e qualquer coisa eu sei que eu posso chamar a polícia.” Mas, infelizmente, em muitas delegacias não existe a presença de uma pessoa que possa atender a essas mulheres, que muitas vezes vão denunciar seus maridos por agressão, estupro e outros tipos de crimes. O preconceito e a falta de inclusão ainda é algo marcante na vida dessas pessoas, em especial às mulheres, que precisam lidar todos os dias com essa situação.

Essa reportagem faz parte da Revista Dandara e teve a participação de Janilson Silva, Samuel Reis, Talila Frazão e Thárcila Castro. Ela será apresentada nesse blog em 5 partes.

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1 comentário

  1. Toda a maneira como em cada época se vê e reproduz preconceitos, inclusive, por mentes como Aristóteles, só revela o quanto todos, dos mais simples aos mais renomados devemos estar abertos ao outro do que jeito que ele é…

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