Exposição coletiva Desmanche entra em cartaz no site do Centro Cultural Vale Maranhão

O Centro Cultural Vale Maranhão – CCVM abre à visitação virtual a partir de hoje, 20, a exposição Desmanche, que conta com 33 obras de 11 artistas brasileiros. Com curadoria de Gabriel Gutierrez, a exposição tem como fio condutor a possibilidade humana de reinvenção e subversão das realidades instituídas, por meio do fazer artístico. 

Situando o conceito de desmanche como dispositivo criativo, a exposição convida o público à  reflexão sobre o momento de crise atual e a necessidade de novos horizontes para uma reorganização do sistema. Diante das propostas enviadas pelos artistas, identificamos uma vontade de tratar as esferas da vida comum, do retorno ao uso e de uma nova ordem para as coisas. Vivemos tempos difíceis e incertos, em que muitas das situações dadas e que conhecemos, não fazem mais sentido. Ao mesmo tempo, percebemos uma brecha para reinvenção, significação e reordenação da vida. É um espaço a ser ocupado pelo fazer artístico amplo e compartilhado. Desconstruir e construir são faces de uma mesma moeda que, ao ser lançada para o alto, cai em nossas mãos. A exposição é um convite para aceitarmos esse jogo, comenta Gabriel.   

Obras de artistas maranhenses compõem a exposição

Três maranhenses integram a seleção de artistas que terão suas obras expostas: Marcos Ferreira, João Almeida e Wilka Sales. A artista de Grajaú (MA) utiliza recursos audiovisuais para promover suas intervenções artísticas. “As performances Voz de disparo e Sinais de Fumaça foram produzidas quando o isolamento social se intensificou e influenciou meus processos criativos. Nelas, as ferramentas  audiovisuais disponíveis são improvisadas a partir de investigações sobre corpo, memória e lugar, ampliando o campo de experimentações e utilizando a intuição como método na pesquisa em arte”, explica Wilka, que é veterana em aprovações no edital Ocupa CCVM, sendo essa sua terceira seleção.

João Almeida leva à Desmanche a obra Tecitura do eu. Composta de uma instalação e uma vídeo-performance, trata do reconhecimento identitário do artista e memórias afetivas que se relacionam com sua família e infância. “Há em cada elemento da obra a afirmação dos meus processos de criação percebidos desde criança e das relações de aprendizado obtido com as artesanias dos meus pais e avós. Refaço uma trajetória, me desfaço de peles, tramo e desmancho linhas para me reconhecer e também firmar quem sou, sem perder a consciência de uma vivência em constante construção”, conta João, que está em sua 5ª exposição como artista visual.

Fechando o trio de maranhenses, o artista visual e cenógrafo Marcos Ferreira é o convidado desta edição do Ocupa CCVM. Sua obra, Armadilha, é feita de crochê e foi produzida durante o período de isolamento social. “O crochê possibilitou ver o tempo de outra maneira, podendo, mesmo que minimamente, se desligar do exterior e abrir a mente para aprender ainda mais sobre a técnica”. A obra de Marcos é pensada para provocar no público a sensação de serem atraídos pela instalação, por conta das cores vivas e formas geométricas escolhidas, que imitam teias. “O Ocupa CCVM proporciona expor o meu trabalho a nível nacional, tendo visibilidade e possibilitando novos acessos. É uma forma de fomentar a criação artística local, além de estimular o pensamento e experimentações de novas técnicas e materiais”, avalia.

Seiscentas cobras feitas de tecido compõem instalação

A artista baiana Ieda Oliveira apresenta três obras:  a instalação Ninho de cobra e os vídeos Pedra falsa e Com a cabeça nas nuvens. Os trabalhos partem de  suportes, materiais e objetos do uso cotidiano, como fonte de uma construção poética visual  centrada na conexão entre imagem e palavra. Ninho de cobra é composta de 600 serpentes de tecido e foi inspirada no dito popular sobre ambientes com pessoas maldosas. “A relevância dessa instalação situa-se por estabelecer esse vínculo com a cultura popular e a arte contemporânea. Como artista canalizadora de experiências, compreendi que o jogo no sentido amplo da palavra perpassa todo meu trabalho e processo criativo com os objetos e as palavras, e que, além de jogar com o sentido delas, os comportamentos, as relações e ações estão presentes em meu processo de criar”, afirma Ieda.

Junta-se a Ieda, a artista brasiliense Camila Soato, vencedora do prêmio PIPA de Melhor Exposição em 2013. Camila apresenta  3 pinturas em óleo sobre tela, que integram o projeto Arregaça: o mito do ser pacífico. Criado juntamente com sua produtora, Gabriela Rodrigues, o projeto tem como fio condutor um desejo de registrar a história de ambas, pela ótica de suas vivências enquanto mulheres. “De forma debochada e escrachada, proponho um jogo com imagens apropriadas da internet, associadas a autorretratos feitos em situações um tanto incomuns. Tentamos mostrar uma vertente diferente do que foi invisibilizado pela história patriarcal em que estamos imersas”, explica a artista. Com o projeto, Camila abre uma reflexão sobre questões que envolvem micropolítica, sexualidade, identidade, gênero e hegemonia histórica.

Série de fotografias indígenas é destaque

O fotógrafo amazonense Paulo Desana expõe a série inédita ‘Pamürimasa (Os Espíritos da Transformação)’. O artista contrapõe temas como tradição, cultura, arte, tecnologia e contemporaneidade, usando recursos de fotografia e iluminação para revelar uma nova abordagem sobre a cosmogonia indígena de sua etnia. As fotografias são inspiradas no mito da viagem da Cobra-Canoa da Transformação – ou, na lingua Tukano, Pamürɨmasa – e foram criadas a partir de pinturas gráficas tradicionais dos corpos e rostos de pajés, benzedores e artesãos, além do grafismo de artesanatos, instrumentos de benzimentos e outros itens das etnias do Rio Negro.

Tales Frey integra a Desmanche com o vídeo Estar a par: passo a passo, em que apresenta dois pares de sapato colados entre si, permitindo que os objetos ganhem nova configuração. Com a função pré-definida do objeto impossibilitada de ser exercida, os corpos agora conectados ganham a oportunidade de partilhar experiências lúdicas.

A dupla Marcelo Muniz e Cadós Sanchez expõe duas instalações: Manivela 1 e Manivela 2, que reproduzem experiências sonoras por meio da utilização de materiais do dia-a-dia, como abridor de lata e descascador mecânico de laranjas. Quando as manivelas são giradas, sons são produzidos por via mecânica e eletrônica, e amplificados no espaço.

O paulista Junior Suci apresenta a obra Feito à mão, utilizando grafite sobre papel, e a vídeo-instalação O homem pensa porque tem mãos. As obras fazem parte da série À mão livre, em que o artista explora o antagonismo entre a manualidade e a reprodução mecânica, em técnicas desenvolvidas pelo ser humano ao longo do tempo. 

João Angelini leva à Desmanche a obra Laissez-faire N° 1, parte de uma pesquisa em que o artista investiga o gesto das mãos de um policial de Planaltina (MG),  realizando a rotina de manutenção de sua arma antes de iniciar o dia de trabalho. Ao desenhar apenas as mãos, Angelini destaca o movimento específico da ação, e não restringe a obra ao formato de vídeo, expondo os 1800 desenhos utilizados na produção da animação. A escolha permite que o público visualize a experiência fílmica do processo e tenha uma vivência espacial da obra, além da visual.

A exposição pode ser visitada virtualmente no site do Centro Cultural Vale Maranhão (www.ccv-ma.org.br). Além da Desmanche, também estão em cartaz as exposições virtuais O Maranhão por Pierre Verger e Afresco de Outono.

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