Volta às aulas: especialistas indicam os cuidados necessários e o impacto do retorno ao ensino presencial sobre a vida dos estudantes

O retorno às salas de aula em cidades brasileiras – seja em modelo híbrido ou totalmente presencial – reflete o momento de transformação que o País vivencia em meio ao avanço da vacinação contra a Covid-19. Nesse contexto, o ensino presencial é recebido com grande expectativa, mas para que possa acontecer de forma segura requer a atenção e o cuidado por parte de profissionais da Educação, pais e estudantes.

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O sanitarista Sérgio Zanetta, professor de Saúde Pública e Epidemiologia do Centro Universitário São Camilo, descreve a volta às aulas como uma necessidade que deve ser adequada à realidade de cada instituição de ensino, mantendo pelo menos três regras básicas e não-farmacológicas de proteção.

“Um estudo recente publicado na revista Science, no início de 2021, indica que essas medidas não-farmacológicas são efetivas para impedir não somente a transmissão de Covid dentro das escolas, como também a transmissão para familiares de alunos e profissionais”, relata. (Clique aqui para assistir ao vídeo com a explicação completa do professor Sérgio Zanetta.)

A primeira regra prevê o uso constante de pelo menos uma máscara, de preferência, com melhor qualidade de filtração. “Se possível deve ser utilizada uma máscara cirúrgica e outra de tecido por cima, quando em ambientes confinados, ou uma N-95 ou PFF2. Isso pelo fato de que a principal forma de transmissão da Covid-19 é respiratória e hoje nós sabemos disso”.

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A segunda regra é estabelecer o distanciamento pessoal de um metro dentro da sala de aula. Esse espaço deve ser mantido também entre as mesas ou carteiras, e o ambiente deve permitir a ventilação e troca de ar. Por fim, continua sendo recomendada a frequente higienização das mãos, seja com água e sabão ou com álcool em gel. “Feito isso, a escola pode ser um dos ambientes mais seguros para se estar. Daí surge a necessidade de se proteger da transmissão comunitária”, lembra Zanetta.

Além do uso de máscaras por todos que estiverem presentes na instituição, o sanitarista destaca que, no momento de acesso de qualquer professor, estudante ou funcionário, “as pessoas precisam ser acolhidas e triadas diariamente para informar se têm algum sintoma gripal ou de Covid-19, ou se moram com alguém que tenha esses sintomas. Em caso positivo, a pessoa deve automaticamente retornar para casa e ficar 14 dias em isolamento a partir do último contato que teve com um sintomático, ou a partir da confirmação do caso”.

O professor de Saúde Pública e de Epidemiologia também chama a atenção para a necessidade de ventilação natural em todos os ambientes de permanência de docentes e alunos, uma vez que isso impede a formação de aerossóis – partículas ainda menores que gotículas, que permanecem suspensas no ar. “Caso alguém esteja com Covid e assintomático, em salas sem troca de ar, esses aerossóis podem permanecer até três horas. Então, a forma de proteção do ambiente é que se tenha ventilação adequada”, detalha. Assim, o ideal seria utilizar ar-condicionado com um sistema de exaustão, colocando o ar para fora do ambiente e sem direcionar o vento sobre as pessoas na sala.

Para além da observação aos sintomas da infecção, os educadores devem estar atentos a sinais comportamentais dos estudantes no momento de readaptação ao ambiente escolar. É o que orienta a professora Glaucia Benute Guerra, coordenadora do curso de Psicologia do Centro Universitário São Camilo. Ela alerta que os profissionais da Educação devem encontrar crianças e adolescentes com algum nível de ansiedade, que tem aumentado de forma geral entre esse público durante a pandemia.

“Essa ansiedade pode se traduzir em medo e preocupação muito grande com a retomada das atividades, que gera um sentimento parecido com aquele quando o aluno entra pela primeira vez na escola, o que torna necessária uma readaptação. Nesse primeiro momento, o melhor é que os professores estejam mais preocupados em encorajar o aluno no momento das atividades e reestimular o desejo pelo aprendizado, muito mais do que cobrar ou se preocupar com o que foi perdido e qual conteúdo ficou atrasado”, avalia.

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A psicóloga lembra, ainda, que a ansiedade pode levar à dificuldade de interação social e de lidar com situações novas – o que, segundo ela, é natural diante do cenário que vivenciamos. Por isso, recomenda-se que os profissionais estejam atentos ao histórico dos alunos, considerando as perdas com as quais cada um teve que conviver.

“Foi difícil se afastar da escola, mas também é muito difícil retornar agora. Afinal, foi um tempo considerável em que as crianças desenvolveram outra rotina. O acolhimento e a segurança e possibilitar a sensação de pertencimento entre os alunos são fatores que auxiliarão bastante na saúde mental de todos eles nesse momento de retorno”, afirma a coordenadora.

Por meio desse acolhimento, os estudantes poderão retomar o desenvolvimento de habilidades que só são plenamente garantidas no espaço físico da escola, conforme descreve a professora Luciane Pedro, coordenadora do curso de Pedagogia do Centro Universitário São Camilo. Ela analisa que durante o período de quase um ano e meio de suspensão das atividades presenciais na Educação foi possível perceber que o espaço escolar é fundamental para trabalhar aspectos socioemocionais dos estudantes, assim como habilidades psicomotoras que influenciam, inclusive, nas demais aprendizagens.

“Esses aspectos psicomotores são desenvolvidos no trabalho corporal que ocorre nas escolas, especialmente na Educação Infantil. Além disso, sabemos que a escola é um lugar de apoio para crianças e adolescentes, principalmente os que vivem em situação de vulnerabilidade, assim como um ambiente seguro para os pais e mães que trabalham deixarem seus filhos e filhas. Lembramos também que a suspensão das aulas presenciais aumentou a evasão escolar e isso traz como consequência o agravamento da distorção entre idade e ano ou série escolar, que já era um problema antes da pandemia”, aponta.

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