Pesquisador da Embrapa e produtor rural vence concurso da Corteva sobre práticas benéficas ao clima

A Corteva concedeu ao produtor, em setembro, o prêmio global de vencedor do Programa de Líderes Positivos para o Clima Corteva Agriscience 2021. Para este concurso concorreram produtores de várias partes do mundo e, ao todo, nove pessoas ganharam o primeiro lugar, sendo duas do Brasil. 

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Abílio Rodrigues Pacheco é pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa há 40 anos. Além de fazer ciência, Pacheco tem se destacado também, nos últimos 14 anos, na atividade de produtor rural, desde que assumiu as terras herdadas, em Goiás. A partir de então, o pesquisador e produtor rural se dedica às atividades de um sistema que integra lavoura, pecuária e floresta (ILPF), obtendo bons lucros, por meio de práticas sustentáveis, ou seja, benéficas ao meio ambiente. Mas, o que chama a atenção nos trabalhos de Abílio Pacheco é justamente o empenho e a paixão em compartilhar o conhecimento adquirido com as duas atividades e os avanços obtidos em sua fazenda. A importância deste trabalho é reconhecida local e internacionalmente, tanto que a multinacional Corteva concedeu ao produtor, em setembro, o prêmio global de vencedor do Programa de Líderes Positivos para o Clima Corteva Agriscience 2021. Para este concurso concorreram produtores de várias partes do mundo e, ao todo, nove pessoas ganharam o primeiro lugar, sendo duas do Brasil. 

O programa global Climate Positive Leaders 2021 é uma iniciativa que visa reconhecer os agricultores e pecuaristas que estão implementando, ampliando e compartilhando práticas bem-sucedidas para o clima. Os vencedores são da Austrália, Brasil, Canadá, Quênia e Estados Unidos e foram reconhecidos pela gama de sistemas e abordagens inovadoras que apoiam suas metas de produtividade no campo, protegendo o solo e a água. “Recebemos muitas candidaturas fortes de agricultores de todo o mundo que compartilharam sua paixão por preservar a qualidade das terras agrícolas para as gerações vindouras”, diz Henry Moore, vice-presidente de responsabilidade global da Corteva, em carta ao vencedor. Em 2020, a Corteva anunciou o compromisso de definir metas baseadas na ciência para redução da emissão de gases de efeito estufa. O concurso internacional que premia as melhores práticas positivas para o clima é outra estratégia nesse sentido, visando estimular a sustentabilidade do setor agrícola.

Dentre as premiações a serem recebidas pelo embrapiano, está o cargo de membro vitalício da Global Farmer Network e a participação em um programa de treinamento de liderança e mesa redonda da Global Farmer Network. Essa oportunidade inclui uma viagem internacional com despesas pagas, treinamento de liderança e comunicação e engajamento com outros pioneiros e líderes da Global Farmer Network. Pacheco receberá também apoio no desenvolvimento de um tour virtual pessoal pela fazenda para comunicar sua jornada, além de serviços como amostragem de solo, medição de sequestro de carbono e orientação do Dr. Rattan Lal e equipe do Centro de Gerenciamento e Sequestro de Carbono, The Ohio State University (CMASC). A história do pesquisador da Embrapa e produtor rural também será divulgada na plataforma global da Corteva.

O Climate Positive Leaders 2021 também reconhecerá os sete agricultores e pecuaristas classificados na segunda posição por meio de interações com a equipe do CMASC, orientação sobre a saúde do solo e recebimento de amostras.

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Por que o Abílio Pacheco?

O trabalho premiado está na fazenda Boa Vereda, localizada ao sul de Goiás, no município de Cachoeira Dourada. Este local já recebeu centenas de visitantes, entre estudantes, produtores, empresários, pesquisadores, representantes de agências de fomento, imprensa e curiosos de várias partes do mundo. Ao assumir os 200 hectares de terra, a propriedade apresentava uma rentabilidade econômica baixa, consequência do estágio avançado de degradação das pastagens existentes na fazenda. Por isso, Abílio Pacheco conta que quase cedeu à opção de arrendar a fazenda para usinas de cana, uma atividade muito forte na região. Porém decidiu seguir em frente com a pecuária de corte, que já era praticada na propriedade, “caracterizada por ser uma atividade segura, que dificilmente quebra o produtor, mas com uma rentabilidade baixa”, diz.

No entanto, o pesquisador-produtor buscou reunir seus conhecimentos e as opções de tecnologias oferecidas pela Embrapa como alternativa para a mudança desse cenário. E optou pelo sistema de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), em busca do aumento da rentabilidade e da sustentabilidade ambiental da propriedade. “A implantação da ILPF nessa fazenda surgiu da motivação de aliar inovação e sustentabilidade, que deram origem ao neologismo “inovabilidade”, conta. Decisão tomada, foi necessário muita pesquisa e conversa com colegas pesquisadores e técnicos sobre os materiais a serem utilizados. Afinal, como bom santo de casa, Pacheco queria colocar no campo os materiais e as tecnologias desenvolvidos pela Embrapa, levando, inclusive, à prova a eficácia de todo este conhecimento. 

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A ILPF

O conjunto do trabalho desenvolvido na Fazenda Boa Vereda foi decisivo para a escolha deste empreendedor como vencedor, pelas diversas ações de gestão positivas para o clima ali empregadas. O sistema de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) consiste em uma série de práticas racionais e sustentáveis de uso e manejo dos recursos naturais, integrando consórcios de culturas agrícolas (Lavoura), cultivos forrageiros e animais (Pecuária) e de árvores (Floresta), instalados e manejados de maneira simultânea ou sequencial no tempo e no espaço. Na mesma área em que anteriormente só produzia proteína animal, agora produz, além da proteína animal, madeira e grãos.

A implantação

O sistema ILPF foi implantado em etapas, em diferentes glebas de pastagens degradadas da propriedade. Essa escolha foi realizada com o intuito de melhor equacionar os gastos financeiros do produtor ao longo do tempo, facilitando a implantação do sistema. “Esse fator é importante também porque, devido à maior complexidade do sistema ILPF em relação aos monocultivos tradicionais, a cada ano, os procedimentos operacionais vão sendo aprimorados, com minimização dos riscos”, explica o pesquisador. O produtor também realizou uma prospecção das demandas no mercado regional, a fim de direcionar melhor sua produção. 

Na safra 2008/2009, foi estabelecida a primeira etapa de implantação do sistema em uma área de 17 hectares. Abílio Pacheco começou plantando soja como componente agrícola e as árvores foram plantadas (eucaliptos) em consórcio com a lavoura. No ano seguinte, foi efetuado o plantio de milho na área anteriormente ocupada pela soja, consorciado com braquiária. Esta pastagem pode ser utilizada pelos animais aproximadamente um mês após a colheita do milho, devido ao seu rápido rebrote. De acordo com Pacheco, a soja utilizada para iniciar o sistema ILPF já quita os gastos iniciais do sistema. “O componente lavoura paga integralmente os custos de implantação dos sistemas de produção ILPF”, conta.

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Passados dezoito meses do plantio da soja, as árvores apresentaram, em média, 8 m de altura e 10 cm de diâmetro, resultado do uso de clones de eucalipto de elevada produtividade, o que permitiu a entrada dos animais (bovinos de corte) no sistema, sem risco de danos às árvores. De acordo com Abílio Pacheco, a escolha de bons materiais genéticos foi algo muito importante. “A cada ano eu incorporava um aprendizado novo, mas, o que impactou muito foi em relação ao uso de bons materiais genéticos, como o do eucalipto, por exemplo. Essa ideia demorou a chegar na minha cabeça, mas eu devia ter começado há muito tempo, porque se gasta a mesma coisa com o material de baixa genética com o de alta genética”, enfatiza o pesquisador.

No decorrer dos anos, foram testadas várias configurações de arranjos do sistema ILPF, principalmente, quanto ao arranjo espacial e densidade de plantio das árvores, de forma a se aprimorar o sistema e amenizar a baixa produtividade da pastagem dentro dos renques de árvores. Além disso, no decorrer dos anos, têm sido usadas diferentes cultivares de eucalipto, de soja, de milho e de forrageiras como forma de garantir ganhos em produtividade, reduzir riscos e, também, como forma de prezar pela diversidade dentro do sistema.

Evolução

Antes de implantar o sistema ILPF, a fazenda produzia quatro arrobas de boi por hectare/ano, enquanto a média nacional era de 5,5 arrobas/hectare/ano. Mas, com a introdução do sistema de ILPF, o produtor triplicou a fonte de renda da Fazenda Boa Vereda. Hoje produzem-se 18 arrobas de boi por hectare/ano e 45 metros cúbicos de madeira por hectare/ano. Outros aspectos trazidos com o sistema ILPF devem ser enfatizados, como o aumento dos nutrientes proporcionados com a serapilheira do eucalipto. Computa-se que 3.600 kg de folhas e galhos finos por hectare/ano depositam-se no solo proporcionando 98 kg por hectare/ano de macronutrientes mais 3,5 kg por hectare/ano de micronutrientes. “O ambiente fica mais fresco proporcionado pelas árvores e reduz entre 20 a 30% o consumo de água pelos animais. Este ambiente promove um bem-estar aos animais, que ficam mais dóceis no ambiente arborizado”, explica o pesquisador.

Dividindo o conhecimento 

O fato de ser um pesquisador da Embrapa com sólida formação acadêmica certamente contribuiu muito para o seu negócio rural. Por isso, Abílio Pacheco faz questão de retribuir e propagar seus conhecimentos: “O que me motiva e me emociona é que sou um funcionário público, e quem paga meu salário é a sociedade. Por isso tenho a grande preocupação de, no dia a dia, retornar este investimento”. De fato, essa contrapartida tem sido a marca deste pesquisador, e fator preponderante para sua escolha para o prêmio da Corteva. 

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De acordo com o Coordenador Regional da Região do Rio Paranaíba da Emater/GO, Sérgio Martins de Oliveira, em 2016, foi iniciado um trabalho de transferência de tecnologia em parceria com a Embrapa e o Instituto Casa da Abelha, com o objetivo de implantar um novo sistema de produção junto a produtores de leite. O ponto de partida foi a propriedade do José Ferreira Pinto, mais conhecido como “Seu Nego”, localizada em Quirinópolis-GO. Até então a tradição da pequena propriedade era a pecuária leiteira.

“Passados cinco anos, hoje essa região se destaca no cenário estadual e talvez até nacional porque nós conseguimos implantar grande número de árvores de eucalipto, na modalidade de sistema silvipastoril, principalmente nas pequenas propriedades envolvidas com pecuária de leite. Desmistificamos aquela história de que o eucalipto seria somente para grande propriedade. Começamos, com um produtor, o Seu Nego, e plantamos 1700 árvores de eucalipto na modalidade silvipastoril em sua propriedade no primeiro ano e, desde então, seu Nego tem ampliado o plantio de eucalipto em sua propriedade. Agora estamos com mais de 41 mil árvores plantadas em silvipastoril e com 80 produtores de leite sendo beneficiados. A ILPF faz com que essa produção de leite seja melhorada substancialmente, uma vez que promove o bem-estar animal e a melhoria das pastagens. Isso tudo mostra a importância do projeto e do trabalho do Abílio desenvolvido aqui na região”, destaca o coordenador da Emater. 

Segundo Abílio Pacheco, “Seu Nego”, junto com os dois filhos, nos seus 48 hectares consegue tirar 1000 litros de leite por dia e, com o silvipastoril, gera, além de leite, também madeira. “Eu não tenho dúvidas de que a qualquer momento, como ocorre comigo, eles vão receber um cheque de 15 a 20 mil reais (por hectare) que não estava na história de vida deles em razão da comercialização da madeira. Fico muito feliz ao ver que os conhecimentos e tecnologias da Embrapa estão promovendo a qualidade de vida e renda desses produtores”, comemora. E ter ganho esse prêmio da Corteva, segundo o pesquisador-produtor, o deixou muito contente. “Ter um reconhecimento global de que o que nós estamos fazendo é a coisa certa, principalmente quando se é pioneiro em alguma coisa, em termos regionais. Pois, se recebe muita crítica e esses reconhecimentos nos ajudam muito a firmar na posição que nós decidimos seguir. Eu vejo que esse sistema de produção vai ser o ou figurar entre os sistemas de produção do futuro”, vislumbra.

Em decorrência do sucesso obtido com o sistema ILPF na Fazenda Boa Vereda, ela se tornou uma Unidade de Referência Tecnológica (URT) da Embrapa e está, também, cadastrada como Unidade Demonstrativa (UD) do Projeto Rural Sustentável Cerrado do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Sustentabilidade (IABS). Neste contexto, em parceria também com a Associação Rede ILPF, com a Universidade Federal de Goiás, com a Agência Goiana de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa Agropecuária (EMATER-GO) e com o Instituto Federal Goiano – Campus de Morrinhos foram envidados esforços na realização de inúmeras ações de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) e de Transferência de Tecnologia (TT), favorecendo a disseminação dos sistemas de ILPF.

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Como frutos dessa parceria, no decorrer de 14 anos, foram computadas cerca de 80 publicações técnico-científicas e mais de 150 ações de TT, com foco em capacitações e atualizações de consultores, empresários, estudantes, extensionistas, funcionários de agências de fomento à pesquisa e ao crédito rural, pesquisadores, produtores rurais, professores, técnicos, dentre outros profissionais do setor agropecuário. Todo este trabalho tem contribuído com a ampliação da adoção do sistema ILPF em diversas propriedades rurais na região do território goiano.

Desdobramentos da ILPF

Com a adoção do sistema ILPF na fazenda Boa Vereda, foram realizadas as seguintes atividades: recuperação das pastagens degradadas, por meio de um adequado cronograma de manejo e adubação; uso do plantio direto na palha, com a técnica de semeadura, na qual as sementes das culturas agrícolas são colocadas no solo não revolvido, usando semeadeiras especiais e uso da fixação biológica de nitrogênio (proporcionado pelo cultivo da soja), que resulta em menor uso de adubos nitrogenados, gerando economia e rentabilidade para o produtor.

O componente arbóreo, além de gerar renda pela produção e comercialização de madeira, contribui de forma mais significativa com o sequestro de gás carbônico (estoque de carbono); com o controle do efeito do vento sobre os demais componentes do sistema; o aumento do bem-estar animal, em decorrência do maior conforto térmico e a utilização dos nutrientes localizados em horizontes mais profundos do solo. Além disso, o pesquisador observou maior eficiência no uso das adubações feitas nas pastagens, já que as árvores também se beneficiam deste recurso. “De modo geral, há melhoria na utilização dos recursos naturais e dos insumos pela complementariedade e sinergia entre os componentes do sistema ILPF”, explica Pacheco. 

Segundo o pesquisador da Embrapa, o sistema de integração proporciona ainda a redução da compactação e erosão do solo, com atenuação progressiva do impacto da chuva, proporcionado pela copa das árvores. Há também melhoria dos atributos físicos, químicos e biológicos (Tecnologia BioAS – Embrapa) do solo, com consequente melhoria da capacidade produtiva do solo; melhoria da recarga dos recursos hídricos e da qualidade da água e da qualidade do ar. E, por fim, há a minimização da ocorrência de doenças, incremento da biodiversidade e melhor controle das plantas invasoras. Nestas áreas, Pacheco fez questão de manter uma diversidade de espécies arbóreas nativas, como, as 25 árvores de sucupira, com idade estimada de 1000 anos, em uma das áreas onde foi implantado o sistema. Sem deixar de mencionar as áreas de reserva legal (RL) e preservação permanente (APP) que tem o papel de contribuir para a manutenção da biodiversidade do Bioma Cerrado e seus consequentes benefícios. 

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Fixação do carbono e Carne Carbono Neutro

O Sistema ILPF proporciona que a Fazenda Boa Vereda gere, aproximadamente, 13 toneladas por hectare ano de carbono fixado. Este aspecto enquadra a fazenda como usuária de uma tecnologia mitigadora dos gases de efeito estufa, produzindo carne carbono neutro, uma certificação desenvolvida pela Embrapa, em cooperação com várias instituições.

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