Obra de Ugo Giorgetti recolhe os fragmentos de uma cidade que se desconstrói o tempo todo

O cineasta, premiado internacionalmente por filmes ficcionais como Boleiros, terá seus documentários exibidos no festival “É tudo verdade”, que começa hoje. Pesquisa acadêmica realizada na Unicamp analisa esse lado menos conhecido de sua filmografia

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José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Maior megalópole brasileira e quarta do mundo, São Paulo já foi chamada de cidade palimpsesto, em alusão aos antigos papiros ou pergaminhos cujos textos originais eram raspados para dar lugar a outros, ou de cidade autofágica, que devora a si mesma. Sob a lógica impiedosa do capital, edificações elegantes são derrubadas para que novas possam ocupar seu lugar; bairros planejados transformam-se em áreas de tráfico de drogas e mendicância; o centro se esvazia e degrada enquanto as populações mais pobres são empurradas para as periferias, que incham. Em sua canção Sampa, que é um hino a São Paulo e suas contradições, Caetano Veloso falou da “força da grana que ergue e destrói coisas belas”. Sampa foi composta em 1978. No quase meio século transcorrido desde então, todos os processos se intensificaram.

O cinema de Ugo Giorgetti é, em certa medida, testemunha desse movimento que avança sobre lugares e pessoas, deixando atrás de si os escombros. Considerado um dos mais típicos representantes do chamado cinema paulista, classificação que ele mesmo rejeita, Giorgetti, que deverá completar 80 anos em maio próximo, foi o observador agudo de várias situações vividas na cidade. E as registrou em uma obra, tanto ficcional quanto documental, na qual a fronteira entre esses dois gêneros é, de algum modo, ultrapassada.

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Como declarou em uma entrevista ao programa Sala de Cinema, da Sesc TV, ele jamais pretendeu captar o quadro todo – e nem poderia fazê-lo. O que procurou e procura foi recolher histórias, social e geograficamente delimitadas, que configuram os estilhaços de uma cidade que se constrói e desconstrói o tempo todo.

Em sua próxima edição, que começa hoje (31/03) e segue até 10 de abril, o festival “É Tudo Verdade” vai apresentar uma mostra dos documentários de Giorgetti. Filmes como Campos Elíseos (1973), Rua São Bento, 405 (1976), Quebrando a Cara (1986) e Pizza (2005), entre outros, estão na programação.

Ao mesmo tempo, um estudo acadêmico sobre a parte não ficcional da obra de Giorgetti está sendo realizado por Liniane Haag Brum no Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade do Laboratório de Jornalismo (Nudecri-Labjor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O trabalho de pós-doutorado conta com a supervisão do professor Carlos Vogt e apoio da FAPESP.

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“O diferencial dessa pesquisa é considerar como objeto toda a obra não ficcional de Giorgetti, o que compreende, além dos documentários, também produções televisivas, como a minissérie Cinema Sonhado, feita para a Sesc TV; filmes realizados sob encomenda; e peças audiovisuais de vários formatos, como os vídeos Cinema por quem o faz, produzidos pela plataforma SP Cine”, diz Brum.

A pesquisadora destaca aspectos menos usuais contemplados pela produção não ficcional de Giorgetti, como no documentário Quebrando a Cara, em que ele narra a trajetória do “clã Jofre”, composto por 11 pugilistas, no contexto das dinâmicas de vida e de sobrevivência em uma das megalópoles mais desiguais do mundo. Ou na série Cinema por quem o faz, em que dá voz aos técnicos de cinema, uma categoria profissional imprescindível para a produção cinematográfica, mas que permanece quase sempre no anonimato, escondida na cena pública.

Giorgetti ganhou reconhecimento a partir de sua ficção. Festa, longa-metragem de 1988, não é o primeiro filme do diretor, mas foi com esse título que ele conquistou sete troféus Kikitos, entre eles o de “Melhor Filme”, no Festival de Gramado. Já Boleiros – era uma vez o futebol, de 1998, que recebeu o prêmio de “Melhor Diretor” no Festival Internacional de Amiens, na França, e foi escolhido como “Melhor Roteiro” pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), fez uma carreira tão cativa junto ao público que se desdobrou em Boleiros 2 (2006) e levou o diretor a escrever crônicas sobre futebol, entre 2006 e 2020, para o jornal O Estado de S. Paulo.

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Outros destaques na obra ficcional de Giorgetti são Sábado (1995), com seu humor melancólico e uma temática na qual o realismo, levado além do limite, transborda no surrealismo; e O Príncipe (2002), atravessado pela nostalgia de uma cidade que se desmancha e de um tempo irremediavelmente perdido. Ousadia típica do diretor é incluir nos elencos, ao lado de atores veteranos, como Otávio Augusto, Maria Padilha, Renato Consorte, Eduardo Tornaghi, Bruna Lombardi e Ewerton de Castro, integrantes que não são propriamente atores, mas desempenham com criatividade os seus papéis. São os casos do músico Tom Zé, do humorista Jô Soares, do poeta Décio Pignatari e do maestro Júlio Medaglia.

“Com menor visibilidade, mas merecendo igual atenção da parte de Giorgetti, sua obra não ficcional reúne cerca de 15 títulos e traz a marca inconfundível de seu trabalho artístico e autoral, mesmo quando feita sob demanda”, afirma Brum.

E continua: “Sem pretender alcançar uma pretensa objetividade narrativa, a obra não ficcional de Giorgetti, que dialoga tão bem com sua obra ficcional, compõe uma espécie de arquivo de coisas que estão desaparecendo na cidade de São Paulo. É o caso de Campos Elíseos, que mostra como o primeiro bairro planejado da cidade, feito sob medida para a aristocracia cafeeira no final do século 19, já havia se transformado em ‘boca do lixo’ menos de um século depois. O documentário apresenta o depoimento de Joaquim Pereira da Costa, o Quinzinho, também chamado de ‘Rei da Boca’, que na época se encontrava preso na Casa de Detenção”.

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Como disse em sua entrevista ao programa Sala de Cinema, Giorgetti é muito fiel à ideia de tratar apenas daquilo que conhece bem e deixar o que não conhece para que outros tratem. Nascido no bairro de Santana, em família italiana, seus filmes trafegam preferencialmente pelas áreas que compõem aquilo que os urbanistas chamam de “centro expandido” do município de São Paulo. São bairros onde predomina uma população branca, de ascendência europeia, que se distribui pelos vários estratos da genericamente chamada “classe média”. Mas a ênfase em personagens desse meio geográfico e social não impede que Giorgetti também inclua em seus filmes recortes das periferias, pobres e negras, compondo um retrato mais fiel da cidade e suas diversidades.

“Um ótimo exemplo, entre outros, é o documentário Pizza, em que o diretor propõe um olhar sobre a capital paulista por meio daquilo que se convencionou chamar de ‘o prato mais popular da cidade’. E vai do centro às periferias, e das periferias ao centro, colhendo depoimentos: desde a fala da proprietária de um estabelecimento de luxo, que possui sistema de segurança com resgate por helicóptero, visando socorrer os clientes em caso de assalto, aos relatos de pizzaiolos e entregadores das periferias, que contam como é migrar do Norte e do Nordeste em busca de melhores condições de vida na megalópole e ter jornada dupla de trabalho, com escritório durante o dia e produção ou entrega de pizzas à noite”, destaca Brum.

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No documentário Em busca da pátria perdida (2008), o local escolhido por Giorgetti foi a Igreja Nossa Senhora da Paz, no bairro do Glicério. Construída por imigrantes italianos, com dinheiro daqueles que enriqueceram em São Paulo, ela contém obras de arte extremamente sofisticadas, como os afrescos pintados por Fulvio Pennacchi (1905-1992), um dos grandes integrantes do Grupo Santa Helena. Mas essa igreja, localizada em uma das áreas mais degradadas do centro expandido, tornou-se também o ponto de acolhimento de migrantes provenientes de todas as partes: brasileiros vindos das regiões mais pobres do país e bolivianos, paraguaios, haitianos, congoleses, sírios e tantos outros, em um total de mais de 70 nacionalidades.

Com construções anexas que abrigam a Casa do Migrante, o Centro Pastoral e de Mediação dos Migrantes, o Centro de Estudos Migratórios e outras atividades, a Igreja da Paz, como é chamada de forma resumida, é uma das múltiplas faces de São Paulo: não a que maltrata e afasta, mas a que recebe e acolhe.

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“Essa São Paulo de tantas faces contraditórias é a grande personagem do cinema de Ugo Giorgetti. Fiquei muito contente quando a Liniane propôs fazer esse estudo sobre a parte não ficcional de sua obra”, diz o supervisor da pesquisa, que também é ex-presidente da FAPESP.

Vogt explica que seu contentamento se deve tanto a causas pessoais como ao reconhecimento da força do cinema de Giorgetti. “Ugo e eu somos amigos há muito tempo. Ele acompanhou a geração de poetas e escritores dos anos 1960, na qual, de certa forma, me situo. Por outro lado, em época recente, ele foi, durante três meses, artista-residente no Programa ‘Hilda Hilst’ do Instituto de Estudos Avançados (IdEA) da Unicamp. A primeira atividade dele no programa foi uma mostra inédita, chamada ‘São Paulo segundo Ugo Giorgetti’. A segunda atividade, ‘O Cinema e a Criação de Ugo Giorgetti’, enfocou diferentes aspectos da criação no cinema, entre eles a discussão do roteiro de Dora e Gabriel, seu filme de 2020.”

Nessa obra, bastante ousada por sua originalidade, Gabriel, um libanês residente há muitos anos em São Paulo, sofre um assalto e é aprisionado no porta-malas de seu próprio carro. Dora, que testemunhou o crime, também é pega pelos assaltantes e colocada ali. Todo o filme se desenrola a partir da interação dos dois, antes totalmente estranhos, nesse ambiente claustrofóbico.

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“Esse filme, Dora e Gabriel, é uma espécie de contraponto em espelho a Uma noite em Sampa, feito em 2016. Em ambos, as personagens estão confinadas. No primeiro caso, por dentro, no porta-malas do carro; no segundo, por fora, ao ar livre, por não conseguirem entrar no ônibus que os levaria ao hotel, depois do espetáculo de teatro que vieram assistir em São Paulo”, comenta Vogt.

A programação do festival “É Tudo Verdade” pode ser consultada em: http://etudoverdade.com.br/br/home/.

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