Escrita alfabética teve papel central na colonização da América

Avaliação foi feita pelo historiador francês Serge Gruzinski, em palestra proferida durante a Escola FAPESP 60 anos: Humanidades, Ciências Sociais e Artes

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Elton Alisson, de Itatiba | Agência FAPESP – Além do poder bélico e da religião, os colonizadores europeus usaram outro artifício poderoso e muito mais sutil para conquistar a América no século 16: a escrita alfabética.

Passados mais de 500 anos, a dominação por meio dessa estratégia de imposição ainda tem reflexos profundos na educação nos países colonizados e guarda algumas características com a atual revolução digital, como a exclusão do acesso de alguns grupos da sociedade a novos meios de ensino.

A avaliação foi feita pelo historiador francês Serge Gruzinski, professor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais e diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), da França, em palestra proferida na Escola FAPESP 60 anos: Humanidades, Ciências Sociais e Artes.

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O evento, que começou domingo (21/08) e acontece até amanhã (24/08) em Itatiba, no interior de São Paulo, reúne pesquisadores em início de carreira para assistir conferências e interagir com especialistas de renome em suas áreas.

“A conquista da América não foi apenas um empreendimento militar e religioso. A escrita alfabética forneceu uma arma decisiva e essencial para os colonizadores”, disse Gruzinski, que realiza estudos sobre a imagem mestiça, o ingresso do México na modernidade e, nos últimos anos, sobre o Brasil e o império português.

De acordo com o historiador, no caso do México, a escrita alfabética apoiou a colonização espanhola antes mesmo da ocupação formal, durante as expedições exploratórias para descobrir e conquistar novos territórios. Durante a conquista, cada passo dos colonizadores e os decretos oficiais eram escritos.

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Após a conquista, diversos documentos foram produzidos pela administração espanhola para informar sobre a fundação de cidades, nomear juízes e instalar a primeira cidade colonial da era moderna, a Nova Espanha, fundada no século 16, afirmou Gruzinski.

“A escrita alfabética foi essencial para criar e manter os vínculos entre a Espanha e o Novo mundo. A metrópole precisava constantemente de mais informações, que eram transmitidas de forma escrita aos novos territórios conquistados. Dessa forma, sem a escrita seria impossível estabelecer essa nova forma de poder colonial”, avaliou.

O passo crucial dos colonizadores espanhóis nesse processo de dominação pela escrita, contudo, foi estabelecer, assim que chegaram ao México, uma política sistemática de alfabetização das elites indígenas por religiosos católicos da ordem franciscana.

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“Em 1530, os religiosos começaram a ensinar os filhos das elites indígenas do México a ler e a escrever em latim. Gradualmente, em diferentes regiões do país, foram abertos internatos nos quais os índios recebiam educação cristã”, disse Gruzinski.

Essa estratégia de assimilação da escrita espanhola pelos nativos indígenas por meio da religião permitiu que cooperassem com os colonizadores, afirmou o historiador francês.

“As autoridades coloniais espanholas não poderiam controlar a terra sem o apoio e a ajuda dos índios. A escrita alfabética era essencial para isso”, sublinhou.

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Já a partir da década de 1540 começou a surgir no México uma nova elite indígena que começou a se notabilizar por suas realizações intelectuais, na medida em que se apropriara do ato de ler e escrever na língua imposta. Nesse período começaram a circular livros impressos no país escritos por índios em colaboração com os franciscanos.

“Eles colaboraram com os franciscanos não só no campo da religião, mas também em outros domínios, como da filosofia”, disse Gruzinski.

No século 17, essas elites indígenas desapareceram, uma vez que se hispanizaram completamente. Seus descendentes começaram mais recentemente a recuperar a escrita original deles por meio de registros da história e a descrição dos territórios que ocuparam. Esses registros têm sido usados como documentos legais para exigir reparações, contou o historiador.

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“Esses descendentes se apropriaram da escrita de seus antepassados para criar títulos de propriedade e formas de proteger suas memórias”, afirmou.

Fenômeno global

Na avaliação de Gruzinski, a revolução alfabética foi um fenômeno global e criou no mundo colonial uma divisão entre as pessoas que tiveram oportunidade de aprender a ler e escrever e as que não tiveram.

“Isso se traduziu em uma grande quantidade de pessoas analfabetas, principalmente negras e indígenas, especialmente em países da América Latina”, avaliou.

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Esse problema foi exacerbado nos últimos anos com o advento da revolução digital, avaliou.

Com a pandemia de COVID-19, milhões de estudantes – principalmente os mais pobres – não conseguiram ter acesso à educação on-line, exemplificou o historiador.

Múltiplas celebrações

Na abertura do evento, realizada no domingo, Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP, lembrou que a Escola está sendo realizada em um momento especial, em que se comemoram os cem anos da Semana de Arte Moderna, os 200 anos da Independência e os 60 anos da FAPESP.

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“Esses acontecimentos são – e devem ser – objeto de muito interesse acadêmico, porque o impacto e o papel que têm na nossa história precisam ser muito bem avaliados diante do que ocorre hoje” avaliou Zago.

O dirigente ressaltou a importância de os pesquisadores participantes do evento se comunicarem com colegas de outras áreas, tais como ciências naturais, matemática, engenharia e ciências da saúde.

“Essa é uma atitude que se torna cada vez mais necessária no nosso mundo. Não podemos permitir que os jovens persistam na tradição de olhar para as ciências naturais, matemática e outras como mundos separados”, avaliou.

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Para Luiz Eugênio Mello, diretor científico da FAPESP, “é uma satisfação promover um evento com a participação de jovens cientistas, que estão em uma etapa da formação na qual se aprofundam em determinadas questões e, por outro lado, ainda é possível ter uma abrangência maior de seus objetos de pesquisa”.

De acordo com Ronaldo Pilli, vice-presidente da FAPESP, a ideia central do evento é oferecer aos futuros líderes em estudos nas áreas de Humanidades, Ciências Sociais e Artes a oportunidade de conhecer a carreira e as áreas de trabalho de pesquisadores renomados no mundo.

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“O encontro representa uma oportunidade para os participantes saberem como foi a trajetória desses pesquisadores, as dificuldades que tiveram até se estabeleceram, as recompensas que alcançaram ao longo das carreiras e quais as habilidades que uma geração como a deles, que está iniciando agora uma trajetória independente, deve ter para alcançar o sucesso. Certamente a escolha do tema de pesquisa é algo central”, avaliou.

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