Hortas urbanas geram renda para sobreviventes de violência doméstica em SP, aponta livro

Tomada por carros, rodovias e prédios altos, parece difícil de imaginar áreas de cultivo de alimentos em uma cidade como São Paulo, mas elas existem. O livro “Agricultura na Cidade: o cultivo de alimentos e do comum pelas mulheres”,  lançado no dia 26 de novembro pela editora Ícone, mostra que estes espaços não apenas existem, mas também dão oportunidade para formação política e geração de renda de mulheres em situação de vulnerabilidade.

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A obra é fruto da tese de doutorado da socióloga Laura Carvalho, defendida na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) em 2021. Carvalho investigou projetos de agricultura urbana na zona leste de São Paulo e em bairros sociais de Lisboa, em Portugal. “Agricultura na Cidade” amplia o trabalho de Carvalho em parceria com a professora Márcia Tait, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Juntas, elas contextualizam o surgimento de hortas nas cidades, os problemas que as propriedades familiares enfrentam e trazem três exemplos chefiados por mulheres em São Paulo.

O foco no trabalho e geração de renda por mulheres não era a ideia inicial do projeto, mas foi uma questão imposta durante o andamento da pesquisa. “Todas tinham histórias de violência, então fui entender as origens disso”, conta Carvalho. “Atuar nessas hortas permitiu a elas se desvencilhar de situações de muita violência, seja do marido, do namorado ou de um terceiro”, aponta a socióloga. No livro, as autoras exploram apenas hortas urbanas com práticas agroecológicas chefiadas por mulheres. No cotidiano, são raros os casos em que há ajuda de parceiros, mas outros membros da família também atuam na produção, classificada como agroecologia familiar.

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Uma das características que as autoras observam nessas famílias é a maioria ser composta por pessoas de outras regiões do país, principalmente do Nordeste, que vieram para São Paulo em busca de trabalho. Assim, o cultivo se torna um negócio. Carvalho considera que existe um componente de empreendedorismo na prática da agroecologia urbana, principalmente entre as mulheres. Além disso, elas encontram também uma maneira de resgatar suas origens rurais, comuns entre os que chegam na capital paulista. “Elas têm uma memória afetiva com a agricultura, muitos vêm de fazendas, chácaras, da roça”, diz Carvalho.

Nos últimos anos, essas mulheres viram a demanda por alimento aumentar durante a pandemia. Em parceria com ONGs e empresas privadas, elas conseguiram se articular para oferecer assistência. Os problemas enfrentados pela agricultura familiar urbana durante a crise sanitária também é abordado em “Agricultura na Cidade”. “A fome piorou nesse período, as pessoas da região também estão em extrema vulnerabilidade nutricional e insegurança alimentar”, observa Carvalho.

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Para manter as hortas em funcionamento, a dupla destaca a importância de políticas públicas voltadas para a agroecologia urbana. “A prática é muito mais do que um método de produção de alimentos. Trabalha com questões estruturais, sociais, históricas, se articula em redes, promove a emancipação”, enumera a socióloga. “De fato transforma vidas das mulheres e de suas famílias”, afirma.

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