Arquivo da categoria: Opinião

A perda familiar merece respeito

Nesta quinta-feira (13), Paulo Roberto, o filho do senador Roberto Rocha, faleceu por após quatro anos de luta contra um câncer. Uma situação lamentável e triste, pois a família estava Paulo Roberto tinha recebido a notícia que estava livre da doença e pouco meses foi informado que houve uma recidiva.

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Paulo Roberto era casado com a apresentadora e influenciadora digital, Carol Carvalho, e deixou um filho de quatro anos.

Ainda nesta quinta-feira, um jornalista bolsonarista e que gosta de afirmar que faz “jornalismo”, fez uma postagem em seu blog pessoal com o título “Drama pessoal de Roberto Rocha facilitou eleição de Flávio Dino”.

Mesmo que tenha opinião política diferente do senador Roberto Rocha, ele merece respeito pelo perda familiar. Usar a situação que ele está passando para criar uma narrativa política, colocando a luta de seu filho contra câncer como motivo de seu derrota nas eleições.

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A forma como esse jornalista culpa Roberto Rocha, que escolheu ficar do lado do seu filho, é desumano. Moralistas e afirmam que defende a família, é inacreditável como os bolsonaristas consegue ser exatamente ao contrario do que prega.

Ao Roberto Rocha, eu desejo todos meus pêsames, que mesmo vendo tendo posição política diferente, você merece respeito pela sua perda.

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É preciso falar sobre feminismo(s) e política

Rosilene Marcelino

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Volte algumas casas no jogo da vida caso você pense feminismo como uma agenda cara a uma dada ideologia política. E outras tantas se ainda imagina o feminismo como oposto ao machismo. Retroceda um pouco mais caso não note a existência de feminismos (isso mesmo, no plural, reconhecendo toda sorte de vivências). E recomece a partida se segue julgando feminismo(s) como algo restrito às mulheres. 

Em um mundo polarizado (bipartido, do isso e daquilo, do é assim e do é assado, do certo e do errado, do bem e do mal, de direita e de esquerda, de santos e profanos, analógicos e digitais, do quiquei e do não quiquei e não sei mais o quê…). É provável você já ter se deparado com o (lamentável, raso e frágil) juízo de valor dos feminismos caracterizados como coisa de comunista, esquerdista e socialista, com essas expressões sendo proferidas a plenos pulmões como espécie de xingamento.  

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Tal articulação, carregada nas tintas de matizes pejorativas, não passa de um mergulho no pires daqueles que abrandam como os nervos milimetricamente estivessem à flor da pele para afugentar qualquer possibilidade de reflexão e consciência. No âmbito político, tem sido no grito a estratégia de silenciamento das diversidades e, consequentemente, o retardo de possibilidades de exponenciar políticas públicas inclusivas. 

Dá-lhe barulho, de caso (bem) pensado, para tentar manter o patriarcado no poder. Em meio a quebra de braço e a opacidade de extremos forjados, brasileiros, parecem praticamente arremessados a uma saída perigosa: que trincheira integrar? Acena aí o risco, entre tantos, da subtração dos indivíduos da potência do diálogo e da reflexão, desde muitas perspectivas, para a busca de saídas conjuntas e responsáveis aos desafios de muitas ordens em termos de País. 

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De uns tempos para cá, na esteira de crises socioeconômicas, políticas e sanitárias, tem-se tornado recorrente a expressão “terceira via”.  À beira das eleições 2022, o termo recuperado d’outras épocas, representa a fração da população que rejeita os, até aqui, líderes das intenções de voto: o Presidente Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Lula (PT). Na tentativa de pavimentação nada tranquila da terceira via, seja nos “quiproquós” de bastidores ou sob holofotes, não se pode dar de ombros para os eleitores que não querem “isso ou aquilo”, mas outras respostas para a retomada de um projeto de Brasil.  

Com a distância de alguns dias da oficialização da candidatura da Senadora Simone Tebet à Presidência sob a tríade MDB, PSDB e Cidadania, assenta-se finalmente a promessa recente de uma chapa feminina com a confirmação da Senadora Mara Gabrilli à vice. 

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Ter, agora, a constituição de uma alternativa de “terceira via” efetivamente composta por mulheres (emedebista e tucana) na corrida presidencial de 2022 soa emblemática e como um convite para se colocar em curso mais visibilidade para a luta por igualdade de gênero na política brasileira. A candidatura evidencia, ainda, que “mulheres no poder” não é caro a um dado espectro político apenas. 

Está se perguntando sobre o(s) feminismo(s) mencionados no início do texto? Para os efeitos destes dois dedos de prosa, fica a ciência de que essa movimentação política e intelectual abriu caminhos para a escrita desta reflexão. As palavras aqui partilhadas logo se dão na esteira de quem foi ponta de lança para denunciar a dominação masculina. Dito isso, lembre-se: Gabrilli não era a primeira opção dos “caciques” dos partidos envolvidos. E, ao final de julho, no sindicato dos Metroviários, foi anunciada pelo PSTU a primeira chapa integralmente feminina na disputa à eleição presidencial de 2022 formada pela cientista social Vera Lúcia e pela vice, a pedagoga Raquel Tremembé, indígena da etnia Tremembé, do Maranhão. Isso deixa o fio da meada para pensar visibilidades, invisibilidades e invisibilizações. 

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Bora colocar os olhos no jogo político; ele diz respeito a todos.  

Rosilene Marcelino é professora do curso de Ciências Sociais da ESPM, doutora em Comunicação e Semiótica (PUC), mestre em Comunicação e Práticas de Consumo (ESPM), especialista em Comunicação com o Mercado e em Ciências do Consumo Aplicadas (ESPM).

Sobre a ESPM

A ESPM é uma escola de negócios inovadora, referência brasileira no ensino superior nas áreas de Comunicação, Marketing, Consumo, Administração e Economia Criativa. Seus 12 600 alunos dos cursos de graduação e de pós-graduação e mais de 1 100 funcionários estão distribuídos em cinco campi – dois em São Paulo, um no Rio de Janeiro, um em Porto Alegre e um em Florianópolis. O lifelong learning, aprendizagem ao longo da vida profissional, o ensino de excelência e o foco no mercado são as bases da ESPM.

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Projetos de infraestrutura na Amazônia: a quem devem beneficiar?

Por Philip M. Fearnside, Laurent Troost e Paulo Moutinho

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Nova infraestrutura na Amazônia precisa contribuir para o fortalecimento da população amazônica e para a conservação do meio ambiente na região

As escolhas sobre infraestrutura devem ser feitas para que os meios de subsistência das populações amazônicas sejam fortalecidos dentro dos limites da necessária conservação ambiental. Para que isto aconteça, contudo, algumas questões-chave devem ser respondidas. A primeira é: quem se beneficia da infraestrutura planejada? Muito da infraestrutura na Amazônia claramente não foi construída para beneficiar a população da região. A infraestrutura deve ser apenas aquela que beneficie os habitantes da Amazônia e tenha mínimo impacto sobre os ecossistemas terrestres e aquáticos.

A questão seguinte trata de quem deve se beneficiar. A população da Amazônia brasileira é mais de 80% urbana e investimentos em infraestrutura precisam incluir componentes para beneficiar aqueles que vivem nas cidades. Precisa-se de empregos que tenham reduzidas demandas de energia e de recursos físicos que geram grandes custos ambientais para a paisagem circundante.

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A Amazônia rural inclui povos indígenas e outros povos tradicionais, além de uma população sustentada pela pecuária e, em menor escala, pela agricultura. A pecuária tem um impacto enorme por cada emprego criado para aqueles que cuidam do gado, consertam cercas, etc. O setor agropecuário industrial recebe uma variedade de subsídios governamentais diretos e indiretos (incluindo a infraestrutura). Os povos tradicionais são aqueles que têm a necessidade mais premente de serem apoiados por questões ambientais e de direitos humanos. No entanto, a maioria dos projetos de infraestrutura e outros investimentos governamentais para residentes na Amazônia rural têm como beneficiário primário o agronegócio. O caso da rodovia BR-163 (Santarém-Cuiabá), reconstruída para transportar soja, ilustra esta tendência.

Além das questões de para quê e para quem os investimentos em infraestrutura devem ser planejados, é preciso responder à questão sobre o que pode ser ou não considerado “sustentável”. A palavra “sustentável” implica algo que durará indefinidamente, ou pelo menos por muito tempo. No entanto, a maior parte do que está sendo realizado dificilmente pode ser considerada “sustentável”. A maior parte da área desmatada é ocupada por pecuária extensiva, que degrada o solo, e manter as pastagens com base de fertilizantes encontraria limites tanto financeiros quanto físicos na escala das vastas áreas já desmatadas, sem falar daquelas que resultariam do desmatamento continuado.

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Incentivar a mineração na Amazônia é uma peça central dos planos do atual governo do Brasil. A mineração é uma atividade inerentemente insustentável, já que os minérios se esgotam. O que resta quando não há mais o que minerar é o impacto ambiental da mina e o abandono da população que dela dependia. Este é o caso da esgotada mina de manganês no Amapá, onde a ferrovia e outras infraestruturas construídas pela empresa estão abandonadas e a população da cidade, criada em função da mineradora, não tem mais fonte de renda. A expectativa de vida dos projetos de mineração na Amazônia costuma ser curta: 31 anos para a proposta mina de potássio em Autazes, e apenas 12 anos para a proposta mina de ouro Belo Sun.

As decisões sobre projetos de infraestrutura na Amazônia devem se basear nos impactos socioambientais gerados diante da realidade atual. O planejamento baseado na suposição de um futuro utópico, onde as normas ambientais sejam cumpridas e respeitadas, resultará na continuidade de degradação ligados a grandes obras. “Cenários de governança” construídos sob premissas irreais têm sido frequentemente usados para justificar projetos altamente prejudiciais. Isso se aplica à maior ameaça atual à floresta amazônica: a proposta de “reconstrução” e pavimentação da rodovia BR-319 (Manaus-Porto Velho). Esta rodovia, juntamente com estradas secundárias a ela associadas, abriria a vasta área de floresta intacta que cobre a metade oeste do Estado do Amazonas à ação de grileiros, madeireiros e outros atores que promovem o desmatamento e a degradação florestal.

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A busca por “infraestrutura sustentável” pode ter efeitos perversos, e categorias de projetos devem ser descartadas quando, para a categoria, esses efeitos perversos excedem os prováveis benefícios de identificar e construir projetos ideais. As hidrelétricas amazônicas são um exemplo crítico. A história dessas barragens até agora tem sido uma sequência de desastres com impactos imensamente maiores do que aqueles que foram levados em consideração nas decisões. A perspectiva de encontrar o “santo graal” de uma barragem “boa” abre uma brecha que perpetua esse padrão. Mesmo que uma barragem teoricamente “boa” fosse construída ocasionalmente, o resultado de ter essa brecha é uma perda líquida para o meio ambiente e para a população da Amazônia. O relatório do Painel Científico para a Amazônia reconhece isso e recomenda contra quaisquer novas barragens na Amazônia com 10 MW ou mais de capacidade instalada, sem exceções. O maior impedimento para o desenvolvimento sustentável e de baixo impacto é a concorrência de caminhos com características opostas.

Sobre os Autores

Philip M. Fearnside é biólogo, pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) em Manaus, Amazonas. Suas diversas pesquisas são unidas pelo conceito de serviços ambientais ou serviços ecossistêmicos reguladores e incluem as causas e processos de desmatamento e degradação florestal, suas emissões de gases de efeito estufa entre outras consequências, e os impactos e a sustentabilidade de hidrelétricas, agricultura, pecuária e manejo florestal. Fearnside foi autor coordenador do Capítulo 20 e coautor dos capítulos 14, 15 e 19 do Relatório de Avaliação da Amazônia 2021 produzido pelo Painel Científico para a Amazônia.

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Laurent Troost é arquiteto belga radicado em Manaus desde 2008, fundador da “Laurent Troost Architectures”. Desenvolve projetos integrados com a natureza ou onde a natureza define espaços arquitetônicos. Ganhou inúmeros concursos e prêmios nacionais e internacionais, como o Prêmio de Arquitetura Akzonobel Tomie Ohtake ou o Dezeen Award. Laurent foi Diretor de Planejamento Urbano do Município de Manaus de 2013 a 2020 e desde então é consultor do Banco Mundial sobre cidades amazônicas. Troost contribuiu ao Capítulo 34 do Relatório de Avaliação da Amazônia 2021 produzido pelo Painel Científico para a Amazônia.

Paulo Moutinho é doutor em ecologia pela Unicamp, estuda as causas do desmatamento na Amazônia e suas consequências para a biodiversidade, mudança climática e habitantes da região. Tem trabalhado na Amazônia brasileira há mais de 25 anos e foi cofundador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia – IPAM, do qual foi Diretor Executivo por duas vezes (2006 a 2009 e 2015). Moutinho foi também cofundador do Observatório do Clima, uma rede de instituições brasileiras para o debate das mudanças climáticas. Atualmente é pesquisador sênior do IPAM. Moutinho co-coordenou o grupo de trabalho 11 e contribuiu aos Capítulos 30, 32 e 34 do Relatório de Avaliação da Amazônia 2021 produzido pelo Painel Científico para a Amazônia.

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Este artigo faz parte de série de artigos publicados, conjuntamente, por Agência Bori e Nexo Políticas Públicas por meio de parceria com o Painel Científico para a Amazônia. Para reproduzi-lo em veículos de comunicação, é preciso informar que o texto foi originalmente publicado no Nexo Políticas Públicas e na Agência Bori.

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Mulheres no “olho do furacão”: a costura de sistemas agroalimentares sustentáveis em tempos de pandemia

Por Rodica Weitzman

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A pandemia trouxe à tona vulnerabilidades socioecônomicas latentes, que se revelam dentro de um furacão que arrastou famílias de comunidades rurais e urbanas, com diferentes graus de intensidade, pela força de sua ventania devastadora. As repercussões nocivas desta crise certamente têm ganhado mais atenção nas narrativas dos veículos de comunicação. Elas, no entanto, nem sempre dão voz aos sujeitos diretamente envolvidos.

O outro lado, que precisa ser melhor visibilizado, é composto por coletivos, redes e movimentos sociais – muitos protagonizados por mulheres – que constroem estratégias que podemos nomear de gestos de “cuidado coletivo”, envolvendo a produção, doação, troca e comercializacão de alimentos agroecológicos. São movimentos que lutam pela segurança e soberania alimentar e pela defesa dos territórios.  Ao jogar luz nestas práticas, podemos ressignifica-lás como formas de resistência e de re-existência que ganham expressividade em situações vivenciadas “no olho do furacão” – perante os altos índices de insegurança alimentar e pobreza que se agravaram ao longo da pandemia, e que se conjugam, de maneira perversa, com a privação de direitos.

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Pesquisas realizadas com mulheres de diversas comunidades rurais e urbanas em 2020 demonstram que as expressões espontâneas de cuidado passam a ser compreendidas como estratégias de sobrevivência e de ação política durante a pandemia. É importante pontuar que essas expressões do “cuidado”, historicamente invisibilizadas como formas e trabalho, se revelam no cerne destes coletivos, envolvem dimensões dos afetos e são atravessadas por relações de reciprocidade – doações e trocas.

Neste contexto, são as mulheres que se colocam na linha de frente. Pesquisa sobre impactos da Covid-19 realizada por integrantes da Rede Feminismo e Agroecologia do Nordeste, por exemplo, mostrou que 75,2% das mulheres rurais da região nordeste do Brasil participaram de atividades vinculadas a algum movimento social ou associação, sendo que 43% estavam envolvidas em grupos de mulheres ou comunitários que buscam gerir ações contra os efeitos da Covid-19, como estratégias de enfrentamento da emergência sanitária e de repartição de alimentos nos seus territórios. Esse tipo de participação feminina se replica em diversos territórios.  Por exemplo, 93 mulheres agricultoras da Associação dos “Moradores e Pequenos Produtores do Estado do Piauí” (AMPEPI), que lideram um empreendimento produtivo com famílias em três territórios rurais da região semiárida envolvendo o cultivo de uma diversidade de culturas nos quintais, relatam que, durante a pandemia, estiveram ativamente envolvidas em uma campanha contra a fome que envolveu a doação de alimentos para os grupos sociais que vivem nas periferias das cidades. Também, conseguiram ativar o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) em dois municípios, uma solução que lhes ajudou a ampliar os seus espaços para comercialização, especialmente diante da suspensão das feiras, devido ao cumprimento das regras de isolamento social.

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Outro caso ilustrativo é do Centro de Integração na Serra da Misericórdia na região metropolitana do Rio de Janeiro (CEM), que também conta com o protagonismo das mulheres nas suas iniciativas. Desde março de 2020, o CEM se envolveu ativamente em um processo de doação de alimentos agroecológicos via o projeto “Campo e Favela de mãos dadas contra o corona e a fome”, promovido pela Rede Ecológica. Ana Santos, representante do CEM, conta que, durante esse período, as entregas quinzenais de alimentos agroecológicos para 200 famílias — com foco maior nos grupos sociais mais vulneráveis: mães solteiras, idosos e crianças — promoveram uma interação entre diversos/as agricultores/as de outras regiões. Houve outros desdobramentos, como o fortalecimento dos processos produtivos dentro dos quintais da comunidade local, nos quais as mulheres exercem um papel central nos processos de cultivo de uma diversidade de plantas alimentícias e medicinais e nas práticas de doação e troca de sementes e mudas com parentes e vizinhos. De acordo com Ana Santos, “os quintais entraram em cena com muita força” durante o período da pandemia, de modo que fortaleceram as ações territoriais nas bases da agroecologia.

As estratégias organizativas no âmbito territorial que testemunhamos ao longo da pandemia nos diferentes territórios do Brasil nos revelaram que as manifestações de cuidado — esse trabalho valioso de “cuidar um/a do/a outro/a”, em todos os sentidos — é central para a sustentação da ação política, da preservação da sociobiodiversidade e da segurança alimentar e nutricional.  As mulheres atuam como verdadeiras “guardiãs” do tecido socioambiental dos territórios rurais e urbanos, que preservam e sustentam os bens comuns, revelando os diversos significados dos alimentos na costura de novas relações sociais.

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Caminhos para a saída da fome

Por Marco Antonio Teixeira

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Desde o primeiro trimestre do ano passado, o tema da fome não sai da pauta pública no Brasil. População recorrendo a restos de ossos e pelancas descartados por supermercados, filas de pessoas aguardando doações de comida e furtos  de alimentos são alguns dos temas que estampam as manchetes de jornais e sites de notícias. Dois relatórios lançados no começo de 2021 do projeto VIGISAN e do Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça revelaram o que grande parte da população brasileira já vinha sentindo no cotidiano: muita gente não têm o que comer; precisa pular refeições; ou está permanentemente preocupada se teria dinheiro para adquirir comida nos dias seguintes.

Essas privações e preocupações eram vividas principalmente em lares pelos quais mulheres de raça/ cor preta ou parda eram as responsáveis, localizados nas regiões Norte ou Nordeste do país ou na área rural, para citar alguns marcadores de desigualdades alimentares. Estes dados comprovam a piora do cenário que já tinha sido apontada pelos números revelados pela POF-IBGE 2017-2018, que mostrou que a insegurança alimentar subiu de 3,2%, em 2013, seu nível mais baixo, para 4,6% em 2017-2018. Em 2020, este número chegou a 9%, de acordo com a VIGISAN, e 15% conforme a pesquisa divulgada por Alimento para Justiça.

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Para alguns, a fome é um projeto e é lucrativa. Refiro-me aqui ao governo Bolsonaro e a alguns setores do agronegócio. Muitos setores da sociedade, no entanto, tentam buscar saídas para essa situação, num contexto de múltiplas crises: econômica – com altas taxas de desemprego e aumento da inflação –, sanitária, climática, política e social.

Ao pensar em soluções, alguns caminhos já são conhecidos e precisam ser debatidos novamente. Sabe-se, por exemplo, que o problema é multidimensional e que este aspecto precisa ser levado em conta. Por exemplo, não se trata apenas de pensar o acesso à comida, mas de garantir que ela seja em quantidade e qualidade satisfatórias e que atenda à cultura alimentar de cada localidade. Podemos também recorrer a experiências acumuladas em governos anteriores sobre como enfrentar a fome. Elas mostram que investir em políticas públicas para a agricultura familiar e camponesa, a regulação do estoque interno de alimentos no país e a geração de renda são ações fundamentais para buscarmos saídas para a fome.

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Porém, neste texto, quero sugerir que a saída da fome no contexto atual deve ser pensada de maneira a incluir as vozes daqueles que estão mais próximos e se deparam com a tontura, o ar no estômago, ou a visão amarela, como Carolina Maria de Jesus descreveu a sensação de fome, na obra clássica “Quarto de Despejo”.

Mas como ouvir estas pessoas? Proponho que um caminho privilegiado para isso seja por meio do diálogo com movimentos sociais que, com suas agendas diversas, têm lutado há anos contra injustiças a partir de soluções coletivas. Há diversos movimentos sociais que tratam da agenda alimentar, o que chamamos analiticamente no grupo de pesquisa Alimento para Justiça de movimentos alimentares.

Se a intenção é fazer diagnósticos ou pensar em soluções para os problemas relacionados à alimentação, de forma geral, ou à fome, em particular, o diálogo com movimentos alimentares e seus representantes é uma abordagem privilegiada para isso. Há movimentos alimentares atuando em todos os biomas, regiões, escalas, que incluem uma ampla diversidade de sujeitos políticos em todo o país. Eles conhecem potenciais soluções com base em sua atuação e conhecimento de diversos contextos e possuem, como ninguém, capilaridade para dialogar com as populações mais afetadas pela fome.

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Se você é jornalista, candidato(a) a algum cargo político, pesquisador(a) ou quer saber mais sobre o assunto e ajudar a pensar sobre as “saídas da fome”, inclua movimentos sociais e seus representantes em suas conversas. Escute o que estão dizendo e adicione as diferentes perspectivas ouvidas em suas análises. Temos vários e importantes movimentos alimentares que, na articulação entre a produção, distribuição e consumo de alimentos, pensam em projetos políticos de construção de sistemas alimentares mais justos, ecológicos, democráticos e saudáveis.

Não sabe por onde começar? Veja, por exemplo, o trabalho da Conferência Popular Soberania e Segurança Alimentar e de todas as entidades envolvidas nela. Mas dialogue também com as diversas iniciativas locais de grupos que têm procurado construir alternativas ao sistema alimentar global, produzindo e distribuindo alimentos saudáveis no campo e na cidade, doando marmitas para populações vulneráveis, criando cozinhas solidárias, entre tantas outras iniciativas de lutas por justiça alimentar. Para buscar saídas justas, ecológicas, democráticas e saudáveis para a fome, precisamos primeiro saber que caminho tomar.

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Sobre o autor

Marco Antonio Teixeira é sociólogo, pesquisador de pós-doutorado do Instituto de Estudos Latino-Americanos (LAI) da Freie Universität Berlin (FU Berlin) e coordenador científico do Grupo de Pesquisa “Alimento para Justiça: Poder, Política e Desigualdades Alimentares na Bioeconomia” (LAI, FU Berlin).

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A desglobalização on-line

Por Paulo Sandroni

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Entre a metade do século XIX e a Revolução Russa, em 1917, o mundo experimentou um extraordinário processo de integração. Avanços científicos e tecnológicos como as invenções do telégrafo, do cabo submarino ligando continentes, do rádio, do telefone, da energia e da luz elétrica moldaram essa integração. A expansão das ferrovias e do transporte marítimo impulsionada pela abertura dos canais de Suez e do Panamá permitiu um desenvolvimento sem precedentes do comércio internacional e das articulações financeiras correspondentes. A oferta de ouro aumentou: descobertas na Califórnia, no Alasca e na África do Sul azeitaram e lastrearam o vertiginoso crescimento das transações comerciais e financeiras. O aumento do desempenho industrial e da produtividade elevou a riqueza material (embora mal distribuída) a níveis dificilmente imagináveis no início do século XIX.

Em 1917, inaugurando o primeiro país socialista no mundo, a Revolução Russa provocou uma ruptura nessa trajetória e isolou a Rússia Soviética, processo acentuado com a crise de 1929. A criação do bloco soviético após a Segunda Guerra Mundial, com a incorporação dos países do Leste Europeu, e a Revolução Chinesa, em 1949, completaram um quadro de separação de dois mundos, enfraquecendo os vínculos comerciais e financeiros mantidos até então. Na década de 1950, o mundo talvez tenha atravessado o período de menor integração. O cenário de isolamento do bloco soviético em razão da Guerra Fria e da China comunista desvinculada dos grandes circuitos comerciais e financeiros contrastava com a maior integração entre os Estados Unidos, a Europa e o Japão.

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A queda do Muro de Berlim, em 1989, unificando outra vez a Alemanha, a dissolução da União Soviética e, pouco depois, as transformações capitalistas na China e no Leste Europeu desaguaram na reintegração desses países nos circuitos globais do comércio e das finanças de forma surpreendente. O processo de reglobalização acentuou-se, e a partir de 1985 o impulso proporcionado pelo global sourcing promoveu extraordinário aumento da produtividade, embora também tenha expandido os riscos da exacerbação da interdependência.

Com o início da pandemia, em 2020, provocou-se o primeiro golpe nas cadeias produtivas e no fluxo internacional de pessoas, provocando recessão em escala global. O mundo restabelecia-se desse abalo quando a invasão da Ucrânia pela Rússia e as sanções impostas pelos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) a esta última iniciaram um processo de desglobalização. A ruptura comercial e financeira vem isolando a Rússia dos mais importantes mercados comerciais e financeiros dos países desenvolvidos. Consequências imediatas: fortes pressões inflacionárias em escala global, queda da produtividade pelo aumento do custo dos combustíveis, diminuição da produção de alimentos e uma recessão cuja duração é difícil de prever.

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As atrocidades cometidas na Ucrânia não serão facilmente esquecidas, e qualquer que seja o desenlace dessa tenebrosa guerra manterá a Rússia em prolongada quarentena, de modo que sua economia sofrerá mais do que as demais, com exceção da própria Ucrânia, que está devastada. Os estragos desse jogo perde-perde são enormes e podem aumentar na razão direta da duração do conflito. O impacto na economia brasileira será a intensificação do binômio indesejável: recessão e inflação.

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Dezenas de milhões de anos de história: dos dinossauros à maior biodiversidade do Planeta

Por Camila Ribas, Lúcia G. Lohmann e Pedro Val

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A Bacia Amazônia é um lugar extraordinário. Mesmo com uma biodiversidade ainda muito pouco conhecida, este bioma inclui cerca de 10% de todas as espécies de plantas vasculares e animais vertebrados do Planeta. Em 1 hectare de floresta Amazônica há mais espécies de plantas com flores do que em toda a Europa.

Uma das primeiras explicações propostas para a alta riqueza de espécies encontrada na Amazônia se baseava no seu longo tempo de existência sem sofrer perturbações extremas, ao contrário das glaciações que cobriram o hemisfério norte com neve e gelo durante os máximos glaciais. Entretanto, a diversidade Amazônica se sobressai mesmo quando comparada a outras regiões tropicais do globo, como a África tropical e região indo-malaia, as quais são igualmente antigas e também foram poupadas de glaciações severas.

O que há de especial sobre a biodiversidade da Amazônia? A resposta para esta pergunta requer a compreensão da atual organização espacial da enorme biodiversidade encontrada no bioma, além de um bom entendimento de como esta diversidade evoluiu e se modificou ao longo de milhões de anos.

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O bioma Amazônico como conhecemos hoje tem uma origem muito antiga, relacionada à história da Terra. O mesmo evento catastrófico que levou à extinção dos dinossauros há cerca de 66 milhões de anos também alterou a composição de espécies de plantas na região Amazônica. Este evento contribuiu para um aumento considerável na biodiversidade da região e deu origem à flora Amazônica atual. Ao longo dos últimos 20 milhões de anos, a aceleração na elevação dos Andes mudou a conformação dos rios que escoam as águas da vasta região continental Amazônica, formando extensos ambientes lacustres que se transformaram na maior drenagem fluvial do mundo.

Além das profundas mudanças na paisagem associadas à elevação dos Andes, a Amazônia também foi afetada pelos ciclos glaciais nos últimos 2,6 milhões de anos, a chamada Era do Gelo. Apesar da região não ter ficado coberta por gelo como a Europa e a América do Norte, dados climáticos de eras passadas mostram que os padrões de temperatura, precipitação e sazonalidade na Amazônia também foram afetados pelos ciclos glaciais. Todas essas mudanças alteraram a distribuição dos diversos ambientes Amazônicos (p.ex., várzeas, igapós, florestas de terra firme e formações abertas) e até mesmo a posição dos enormes rios Amazônicos, levando ao isolamento de populações de animais e plantas em diferentes localidades, contribuindo para a alta diversidade de espécies.

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Em resumo, os padrões de organização da diversidade atual apontam para processos de diversificação mais complexos do que um simples acúmulo de espécies ao longo do tempo. A alta diversidade Amazônica aparenta ter resultado de uma combinação entre a dinâmica história geológica e climatológica da região e a resiliência do bioma ao longo de milhões de anos.

O dinamismo histórico permitiu uma adaptação gradual dos seres vivos e levou ao acúmulo de diversidade. O que vemos hoje, por outro lado, são grandes impactos antrópicos combinados, capazes de alterar as paisagens em poucas décadas e causar mudanças em velocidades até mil vezes maiores do que as naturais. O rápido desmatamento e o barramento dos rios não permitem que espécies se adaptem às mudanças ou se desloquem para ambientes propícios para sua sobrevivência, resultando em extinções em larga escala. O aquecimento global, localmente agravado pelo desmatamento, deixa os ecossistemas Amazônicos mais inflamáveis e afeta a composição de espécies mesmo em áreas de floresta preservada. Essa combinação de impactos em alta velocidade nunca foi vista na história da Amazônia, comprometendo seu futuro de forma drástica.

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A Amazônia não pode ser tratada de uma maneira simplista. Qualquer estimativa de impacto precisa considerar os processos históricos responsáveis pela geração e manutenção do sistema ecológico atual e dos sistemas sociais que dependem dos sistemas ecológicos. Uma melhor compreensão dos processos históricos e atuais que sustentam a alta biodiversidade da Amazônia é crítica para que possamos não somente respeitar sua complexidade e admirar sua grandeza, mas também conservar os processos que geram e mantêm a diversidade única encontrada nesta região.

Sobre os Autores

Camila Ribas é bióloga, pesquisadora e curadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, em Manaus. Investiga biogeografia e conservação da Amazônia, com foco nas aves e nas paisagens. Camila é autora do capítulo 2 do Relatório de Avaliação da Amazônia 2021 produzido pelo Painel Científico para a Amazônia.

Lúcia G. Lohmann é bióloga, professora do Departamento de Botânica, do Instituto de Biociências, da Universidade de São Paulo. Sua pesquisa busca entender a origem e evolução da biodiversidade na região Neotropical, especialmente na Amazônia. Lúcia é autora do capítulo 2 do Relatório de Avaliação da Amazônia 2021 produzido pelo Painel Científico para a Amazônia.

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Pedro Val é geólogo, professor do Departamento de Geologia, da Escola de Minas, da Universidade Federal de Ouro Preto. Investiga evolução de paisagens naturais e busca entender até que ponto as mudanças geológicas são responsáveis pela alta biodiversidade da Amazônia. Pedro é autor do capítulo 1 do Relatório de Avaliação da Amazônia 2021 produzido pelo Painel Científico para a Amazônia.

Sobre o Painel Científico para a Amazônia (PCA)

O Painel Científico para a Amazônia é uma iniciativa inédita convocada pela Rede de Soluções de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (SDSN), lançado em 2019 e inspirado no Pacto Leticia pela Amazônia. O PCA é composto por mais de 200 cientistas e pesquisadores proeminentes dos oito países amazônicos e Guiana Francesa, além de parceiros globais que apresentaram em 2021 um relatório inédito com uma abordagem abrangente, objetiva, transparente, sistemática e rigorosa do estado dos diversos ecossistemas da Amazônia e papel crítico dos Povos Indígenas e Comunidades Locais (IPLCs), pressões atuais e suas implicações para o bem-estar das populações e conservação dos ecossistemas da região e de outras partes do mundo, bem como oportunidades e opções de políticas relevantes para a conservação e desenvolvimento sustentável.

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Por que Sara Winter continua solta?

Após ter o celular e o notebook apreendido, Sara Winter ameaçou ministro do STF, Alexandre Moraes.

No dia 28 de maio, a Polícia Federal apreendeu o celular e o notebook de Sara Winter após uma operação contra fake news. Através das suas redes sociais, Sara Winter ameaçou o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre Moraes, o convidando para “trocar socos”.

“Eles não vão me calar. De maneira nenhuma. Pelo contrário. Eu sou uma pessoa extremamente resiliente. Pena que ele mora em São Paulo. Se estivesse aqui, eu tava na porta da casa dele, convidando ele para trocar soco comigo. Juro por Deus, eu queria trocar soco com esse filho da puta desse arrombado. Infelizmente eu não posso. Mas eu queria. Ele mora lá em São Paulo, né? Você me aguarde, Alexandre de Moraes. O senhor nunca mais vai ter paz na vida do senhor”, publicou no Twitter.

Através de um vídeo, Sara Winter ameaçou infernizar não somente a vida do Ministro, como todos as pessoas que são empregadas por ele.

Sara Winter é uma Youtuber que se denomina ex-feminista que está atualmente filiada ao Democratas. Seu nome verdadeiro é Sara Fernanda Giromini e foi fundadora da variante brasileira do grupo Femen, mas atualmente é líder de uma milícia pró-Bolsonaro que busca “ucranizar o Brasil”.

A pergunta que fica é por que ela continua solta após ameaça publicamente um Ministro do STF?

Do lado da moeda, conhecemos a história de Rafa Braga Viera, um cidadão brasileiro que foi preso durante as manifestações de 2013. Rafa Braga trabalhava como catador de matérias recicláveis e está cumprindo prisão domiciliar e passa por um tratamento de tuberculose, onde foi contraído dentro do sistema penitenciário.

Rafa Braga foi preso injustamente durante duas abordagens policias sem testemunhas, com uma pequena quantidade de drogas e com suspeita de flagrante forjados, segundo sua defesa.

Por muito menos, um jovem negro da periferia foi preso. Sem provas, sem testemunha, sem um vídeo, sem áudio. O contraste que existe na história de Sara Winter e Rafa Braga é gritante. Enquanto uma mulher branca pode livremente ameaçar não somente a vida de um Ministro do STF, mas todos as pessoas que o cercam. Um negro é preso sem provas e condenado. Enquanto isso, as instituições que deviam manter a ordem, ignoraram uma criminosa terrorista que busca implantar um neonazismo, como aconteceu na Ucrânia.

Se sentindo ameaçada, Sara Winter mostra como nossas instituições se deixam serem destruídas e a democracia ser fragilizada, ainda mais. Um homem negro é preso por qualquer motivo, enquanto Sara Winter continua solta ameaçando vidas, pois se sente poderosa com sua milícia de 300 pessoas, como sempre alega em seus discursos. O ódio que ela expressa durante seu vídeo de ameaça, mostra exatamente porque o bolsonarismo defende tanto as fake News: simplesmente para propagar o ódio.

Opinião: A (in)visibilidade da violência contra as mulheres

O Brasil ainda tem uma grande dificuldade em diminuir os casos de violência contra as mulheres

Nos últimos anos, o feminicídio ganhou um grande destaque nas manchetes nacionais. A violência contra a mulher acabou ganhando mais frequência nas páginas dos jornais que outros assuntos e a forma como os meios de comunicação abordam esse tema precisa ser analisada.

Sancionada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2006, a Lei 11.340/06, conhecida como Lei Maria da Penha, é considerada pela ONU como uma das três melhores legislações do mundo no enfrentamento à violência contra as mulheres. Mas a lei somente é citada nos jornais quando se trata de casos de violência contra mulheres adultas. Os demais tipos de violências, sofridas por crianças, adolescentes e idosas, são esquecidas e não existe nenhuma citação sobre políticas públicas para esse grupo.

Os jornais acabam dando pouca (ou nenhuma) importância sobre os problemas que são gerados com essa violência, mostrando um certo descuido sobre o assunto ou até fazendo isso de propósito. O descuido começa quando os jornais não mostram como esse assunto é importante e ficam somente na superficialidade dos casos. Dessa forma tornam os casos de feminicídio somente um caso qualquer dentre outros homicídios.

Segundo Geysa Fernandes em seu artigo Mulher na Mídia, as consequências não envolvem somente a mulher violentada, mas também a família e que o discurso utilizado na maioria das notícias dos jornais ao relatar os casos de feminicídios minimizam ou acabam dando um tom de desprezo, sendo apenas descritivos, onde se evidencia um agressor, uma vítima e uma ação hostil, igualando a violência de gênero a outros tipos de violência.

Outro exemplo é a notícia publicada no jornal maranhense Jornal Pequeno com a chamada “Mulher é assassinada pelo ex-marido em Balsas”, em apenas dois parágrafos o feminicídio foi noticiado como um homicídio qualquer, a notícia ainda evidencia ainda que a vítima era usuária de drogas, em nenhum momento da matéria, o jornal dedicou um espaço para informar como evitar ou em que tipificação se encaixar esse homicídio.

Segundo o Monitor da Violência, o Brasil ainda tem uma grande dificuldade em diminuir os casos de Violência contra as mulheres. Entre 2017 e 2018 foram 4.254 vítimas. Essa marca diz respeito apenas aos casos registrados oficialmente, onde podemos concluir que este número pode ser ainda maior. Segundo o Escritório das Nações Unidas para Crime e Drogas, a taxa no Brasil é de 4 mulheres mortas para cada grupo de 100 mil, sendo 74% superior à média mundial, que é de 2,3 mortes a cada 100 mil mulheres. O Brasil como um dos países mais violentos para as mulheres.

Existe também na mídia o descuido em explicar melhor como a lei funciona, pois muitos a desconhecem e a resumem somente a casos de brigas entre companheiros. A proposta da Lei Maria da Penha vai além, uma vez que presume a “eliminação de todas as formas de discriminação contra as mulheres”, previne e pune qualquer tipo de violência contra a mulher e não se limitando ao feminicídio ou a violência física ou sexual. O desconhecimento da lei é evidente e muitos leitores não sabem que ela pode ser aplicada em outras situações. Quando os jornais não noticiam essas outras informações, acaba perdendo sua principal função: informar as pessoas e constituir cidadania.

No cenário local, jornais diários dão muita atenção a alguns tipos específicos de violência contra as mulheres, a exemplo das as violências físicas e sexuais. Apesar dos 13 anos da Lei, não houve uma grande mudança de abordagem desses veículos. Como aconteceu com a notícia sobre a morte de Elielma de Castro Serejo, morta a tiros de espingarda pelo marido em Santa Rita. A notícia foi veiculada ao Jornal Itaqui Bacanga com a chamada “Mulher é morta pelo Marido em Santa Rita”. Em nenhum momento, o jornal se preocupou em dar mais informações sobre a Lei Maria da Penha. Casos aparentemente menos graves, como violência verbal e moral, são esquecidos ou simplesmente ocultados dos meios de comunicação.

Esse tipo de mídia que busca alcançar o maior número de leitores, acaba menosprezando a violência contra a mulher. Para José Arbex Jr, no texto Uma Outra Comunicação é possível (e necessária), quando a mídia “trata as notícias como ‘produtos’ sujeitos à ‘lei do mercado’, a mídia recorre ao sensacionalismo” (p. 385, 2003). A disputa comercial, feita de forma camuflada, a destaque aos casos de violência contra as mulheres, mas somente enfatiza às notícias mais trágicas e apelativas, deixando de lado a contextualização dessa violência, tal descuido e a ausência de informação reduzem a violência de gênero a mais um caso policial qualquer.

As mídias deixam de lado a obrigação de noticiar sobre políticas públicas que podem servir no combate à violência em muito dos casos, sequer mencionam os contatos para denúncias. Mesmo se esforçando em passar uma imagem imparcial e democrática, é visível o descuido em noticiar esse tema, explicitando somente para alcançar um objetivo, o lucro.

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