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Fragmentação do território amazônico em ilhas prejudica interações vitais entre as espécies, mostra estudo

Fragmentos florestais provocados pela ação humana na Amazônia não conseguem manter as mesmas interações ecológicas das áreas de vegetação contínua. Ou seja, a biodiversidade dessas áreas isoladas não funciona da mesma maneira como uma floresta contínua.  É o que mostra estudo publicado nesta quarta-feira (28) no periódico “Current Biology”, com a participação de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas, da Universidade Estadual de Santa Cruz e de outros pesquisadores brasileiros em instituições dos Estados Unidos e do Reino Unido.

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Os resultados são de uma análise da biodiversidade presente nas ilhas formadas pela inundação do reservatório da Usina Hidrelétrica Balbina, localizada em Presidente Figueiredo, no Amazonas. O estudo reanalisa um conjunto de dados obtidos pela pesquisadora Maíra Benchimol em 2012. Ela utilizou armadilhas fotográficas e percorreu trilhas dentro de 37 ilhas com remanescentes de floresta amazônica a fim de entender quais espécies ocorreram em cada local e o número de indivíduos. Assim, os autores do artigo combinaram os dados empíricos com modelos matemáticos para gerar as possíveis redes de interação entre predadores e suas presas.

“Balbina é uma hidrelétrica da década de 80. A construção foi marcada controvérsias devido ao seu impacto social e ambiental: uma área gigantesca foi inundada. A área de mata contínua foi fragmentada pela água. Assim, surgiram ilhas artificiais”, detalha o pesquisador Mathias Pires, um dos autores. Ele informa que algumas espécies foram extintas pela falta de indivíduos suficientes nessas ilhas. Dessa forma, as interações vão sendo perdidas à medida em que a área de habitat diminui, e a rede de interações perde suas características.

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O estudo analisou as consequências da criação de ilhas artificiais, mas a fragmentação da Amazônia também ocorre por outras formas, como pelo avanço descontrolado da agricultura e das pastagens. A coleção de pequenos fragmentos provocados pelo isolamento territorial dificulta a funcionalidade ecológica. Pequenas ilhas não conseguem manter, por exemplo, a função dos predadores que controlam as populações de presas, explica Pires.

As consequências para a biodiversidade são inúmeras, conforme prevê o cientista: nos locais em que os predadores não atuam muito, algumas espécies podem apresentar um aumento descontrolado em sua abundância. E esse excesso implica mudanças na vegetação. Por exemplo, as cutias favorecem algumas plantas por dispersarem suas sementes, mas podem prejudicar outras quando estão em alta densidade alterando a vegetação. Além disso, “os predadores como onças e jaguatiricas podem nadar e visitar algumas ilhas apenas para comer, assim reduzindo as populações de presas em alguns locais a níveis muito baixos.

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Os autores esperam que a divulgação do estudo mostre a importância das políticas públicas para evitar a fragmentação da Amazônia. Para Pires, as medidas precisam ir além de garantir a existência das espécies, ou seja, é necessário preservar áreas maiores de florestas que permitam um número de indivíduos suficiente para manter as interações e funções ecológicas.

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Incêndios florestais aumentaram no Sudoeste da Amazônia após novo Código Florestal

A Amazônia é a maior floresta tropical do mundo e desempenha um papel importante na regulação do clima global. Porém, o desmatamento contribui com a alteração dos ciclos das chuvas, provocando a intensificação da estação seca, o que aumenta a extensão da  vegetação nativa afetada por incêndios florestais. O crescimento contínuo das queimadas em Boca do Acre (AM) foi de 66% em 2012, ano de aprovação do novo Código Florestal, para 88% em 2019. As informações são de pesquisa realizada por cientistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) em parceria com outras instituições nacionais e internacionais, e publicada nesta terça (20) na revista “Fire”. 

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A pesquisa analisou dados de satélite das áreas queimadas entre os anos 2003 e 2019, em uma nova fronteira do desmatamento, no Sudoeste do Amazonas. Após o cruzamento dos dados, os cientistas ponderaram as informações acerca do clima, cobertura do solo, imóveis rurais e áreas protegidas. “O objetivo do estudo foi fornecer uma avaliação abrangente da extensão espacial e padrões de áreas queimadas, analisando o que, onde e o quanto mudou, para poder entender o processo do fogo na região do estudo”, explica a pesquisadora Liana Anderson, uma das autoras do estudo. No período estudado, a área anual afetada pelo fogo variou a partir de 33 km² e atingiu pico 681 km² em 2019.

O estudo também buscou compreender o processo das queimadas e os principais fatores que as influenciam. “Observamos a importância das áreas de proteção, como as unidades de conservação e terras indígenas, pois estas servem como barreiras para que o incêndio não adentre as regiões mais preservadas da Amazônia”, aponta a assistente de pesquisa Débora Dutra, que liderou o estudo. Em contrapartida, as áreas de pastagens e agricultura próximo às rodovias, como a BR-317, e as rotas utilizadas para transporte de madeira do desmatamento causam alterações nessas barreiras, deixando a floresta mais vulnerável aos incêndios florestais. 

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“O desmatamento tem uma relação com o fogo, pois a abertura de novas áreas expõe cada vez mais a floresta”, aponta Liana Anderson. Conforme o estudo, a tendência de desmatamento na região aumentou de 15% em 2012 para 91,60% em 2019. Observou-se também o avanço no desmatamento e do fogo nas áreas de florestas públicas ainda não designadas, indicando a necessidade urgente de políticas públicas para garantir a conservação destas áreas.

Segundo as pesquisadoras, a perspectiva para os próximos anos é um aumento significativo nos focos de fogo na região devido ao aumento do desmatamento e do processo de grilagem de terra, observado no estudo a partir do registro de imóveis rurais em áreas de florestas públicas em que ocorreram processos de desmatamento e incêndios florestais. “Se não tivermos políticas públicas e ações de controle contra atividades ilegais, como a extração de madeira sem autorização e desmatamento, podemos esperar que esta área se torne crítica tanto pelo aumento de conflitos quanto pela perda de serviços ecossistêmicos”, enfatiza Anderson. 

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Um terço das Áreas de Preservação Permanente em São Luiz do Paraitinga (SP) estão suscetíveis a inundações

Apesar do histórico de acidentes naturais, como o ocorrido em 2010, quando cerca de 3 mil pessoas foram desalojadas ou desabrigadas por conta da inundação no município paulista de São Luiz do Paraitinga, um terço (32%) das Áreas de Preservação Permanente do município estão, uma década depois, em locais de alta suscetibilidade a escorregamentos, com predominância de pastagens, solo exposto e área urbana. A restauração florestal nestes locais seria uma oportunidade de reduzir os riscos de desastres naturais frequentes na região, como inundações e deslizamentos. As conclusões são de estudo do Instituto de Pesquisas Ambientais de São Paulo em parceria com a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRJ), publicado na sexta (16) na Revista do Instituto Florestal.

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Diante dos resultados, os autores ressaltam a necessidade da implantação de ações de mitigação e de planos de restauração florestal, principalmente nas áreas mais intensamente afetadas pela ação humana, para reduzir os riscos de desastres naturais e melhorar a qualidade de vida e ambiental. A observação foi possível a partir do cruzamento dos dados preexistentes acerca da suscetibilidade a desastres naturais com áreas que, segundo o Código Florestal, deveriam estar preservadas e protegidas — as Áreas de Preservação Permanente (APPs).

O autor principal do estudo, Ewerton Danilo Souza Santos, explica que a ocupação do solo por pastagem potencializa os processos de erosão, assim como áreas onde não há cobertura vegetal favorecem o assoreamento das calhas dos rios. “Ao identificar as APPs, principalmente as localizadas em áreas de risco, é possível focar e planejar ações de adequação ambiental e legal. Além disso, é uma opção para buscar equilíbrio entre os setores econômico e ambiental, que geralmente possuem interesses divergentes, visando também a segurança da população”, declara Santos.

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Para o pesquisador Humberto Gallo Junior, a análise é um ponto de partida, que nasce de um projeto de iniciação científica e abre caminho para investigações mais aprofundadas. “Após mais de uma década, seria muito interessante um estudo que verifique a resiliência do município aos riscos de desastres, ou seja, avaliar se o município está preparado para lidar com um evento como o que ocorreu naquele ano”, conclui.

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Cobertura sobre mudanças climáticas falha por ser distante, com termos técnicos e limitada à Amazônia, aponta estudo

O jornalismo é um instrumento para abertura de discussões e conscientização a respeito das mudanças climáticas, mas a cobertura do tema pela grande mídia precisa se aproximar mais do público, diminuir os termos técnicos, ir além das pautas sobre Amazônia e denunciar as causas e responsáveis pelas crises ambientais. É o que apontam ativistas em pesquisa desenvolvida pelo Instituto Modefica, uma organização sem fins lucrativos, junto com pesquisadores do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Os dados estão descritos em relatório divulgado na quarta-feira (14) no site do Instituto Modefica.

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Para isso, inicialmente foram feitas pesquisas no Scielo e Google Scholar para identificar referências publicadas ao longo dos últimos cinco anos, e, questionários digitais foram distribuídos por meio das redes sociais do Modefica para selecionar jovens ativistas dentro da faixa etária de 18 a 35 anos, que pudessem colaborar com o estudo. Foram realizados dois grupos focais em cada uma das cinco regiões do Brasil, totalizando 60 participantes, sendo 13 do Norte, 13 do Nordeste, 11 do Centro-Oeste, 11 do Sudeste e 12 do Sul.

Os encontros com ativistas duraram em média duas horas e ocorreram de forma remota, pela plataforma Zoom, entre os dias 22 de junho e 20 de julho de 2022. As discussões foram mediadas pelas pesquisadoras e divididas em duas partes: a primeira com perguntas gerais sobre engajamento e jornalismo climático. A segunda, com apresentação de duas reportagens, sendo uma produzida pela TV Cultura sobre o desmatamento na Amazônia e outra produzida pelo portal Brasil de Fato, que aborda possíveis soluções para a crise climática. No final, coletivamente foi discutido o papel do jornalismo no enfrentamento das mudanças climáticas. Esses dados foram transcritos e processados por meio de uma análise qualitativa de conteúdo.

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Para Marina Colerato, esta pesquisa verifica a importância do jornalismo como um uma ferramenta de conscientização, essencial para a luta contra a crise climática, devido ao seu alcance e credibilidade perante ondas de desinformação. “Acreditamos que as mudanças necessárias para redução dos danos climáticos dependem de um amplo entendimento e engajamento cívico” afirma Colerato. Os dados levantados por meio dos ativistas apontam também para a necessidade de apreciar os defensores da floresta e escutar outras fontes, além de cientistas, como aquelas diretamente afetadas pelas consequências das crises climáticas. Além desses, as discussões nos grupos focais também demonstraram um anseio pela indicação por parte dos veículos da grande mídia sobre os maiores responsáveis pelas catástrofes climáticas, sendo a agropecuária o setor mais criticado.

Ainda há poucos estudos, principalmente na área que compreende o “Sul Global” – países em desenvolvimento – que abordam a comunicação climática se debruçando sobre as percepções públicas a respeito das mensagens jornalísticas. “Este estudo é uma contribuição para identificarmos compreensões e demandas associadas às diferentes realidades do nosso país, necessárias para pensarmos em estratégias mais alinhadas com a cultura e o dia a dia de cada lugar” discorre Colerato. Futuramente, as jornalistas vislumbram que o trabalho possa ser utilizado como base para aprofundar os entendimentos, com amostras mais representativas e outros públicos, e servir como indicativo para formas de cobrir a pauta climática mais próximas aos leitores.

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Novo modelo de rotulagem de alimentos do Brasil é menos eficaz para identificar produtos nocivos voltados a crianças que modelos adotados na América Latina

Por determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), alimentos vendidos no Brasil ganharam nova rotulagem em outubro. Entre as mudanças, uma das mais importantes é a inclusão de um selo frontal com uma lupa. O ícone indica produtos com altos teores de açúcar adicionado, gordura saturada e sódio — teores estes definidos pelo perfil nutricional eleito pela agência, mais permissivo do que perfis nutricionais adotados por outros países da América Latina e do que o perfil recomendado pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Essa permissividade torna o modelo brasileiro menos eficaz em identificar alimentos com presença de publicidade dirigida para o público infantil e que são nocivos à saúde das crianças. É o que concluem pesquisadoras do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens/USP) em estudo publicado na “Frontiers in Nutrition” nesta semana.

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Assim como ocorre em diversos países, alimentos voltados para o público infantil no Brasil costumam ter ações de marketing na própria embalagem. Exemplos são a imagem de personagens infantis, de celebridades do esporte e alegações sobre crescimento e desenvolvimento. Para testar a eficácia do perfil nutricional brasileiro em identificar nutrientes em excesso nestes produtos, as cientistas fizeram um experimento: analisaram cerca de 3500 alimentos e bebidas de acordo com seis diferentes perfis nutricionais (Brasil, Chile. México, Uruguai, Peru e o modelo estabelecido pela Opas).

O resultado mostrou que 30% dos alimentos selecionados tinham pelo menos uma estratégia de marketing para o público infantil, e que 61% dos produtos eram alimentos ultraprocessados. As bebidas adoçadas (como refrigerantes e sucos de caixa) tiveram a maior prevalência de marketing infantil no rótulo. Entre os diferentes perfis nutricionais analisados, os da Opas e do México foram os mais efetivos em identificar ao menos um nutriente crítico nos alimentos com presença de publicidade dirigida para crianças no rótulo. O modelo brasileiro teve a pior performance: das bebidas ultraprocessadas, por exemplo, menos de 20% levariam o selo frontal da Anvisa.

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“A performance da nova rotulagem adotada no Brasil é preocupante, e mostra que o modelo pode não ser eficaz para o entendimento do consumidor sobre a saudabilidade do alimento, ainda mais quando tem a presença da publicidade reforçando sua compra”, diz Camila Borges, uma das autoras do estudo. “A presença de marketing infantil desperta o desejo das crianças pelo produto. Ao mesmo tempo, a ausência de um destaque sobre teores inadequados de nutrientes como açúcar e sódio pode fazer com que o alimento pareça saudável, influenciando na decisão de compra dos responsáveis.”A detecção da presença de açúcar foi o quesito com maior diferença entre os perfis nutricionais analisados: enquanto o modelo mexicano foi capaz de identificar teor inadequado em 81% das bebidas lácteas, por exemplo, com presença de publicidade voltadas ao público infantil, o modelo brasileiro identificou apenas 19%.

Para Borges, o perfil nutricional pode ser uma ferramenta importante para regular o marketing infantil em alimentos ultraprocessados altos em açúcar adicionado, gordura e sódio — caso isso venha a acontecer, o estudo aponta que será necessário revisar os patamares tolerados para os nutrientes críticos, bem como os critérios de elegibilidade para ampliar a lista de alimentos que devem receber selos frontais em formato de lupa. “A regulação de alimentos ultraprocessados é de extrema importância, tendo em vista que a obesidade e o sobrepeso atingem uma em cada cinco crianças e adolescentes na América Latina, sendo uma das mais altas prevalências do mundo.”

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Caminhos para reconstruir as políticas públicas de alimentação

Por Rede Penssan

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A Rede PENSSAN (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional) apresenta por meio deste ensaio pontos para uma agenda de reflexões e trabalho, de interesse de todos os brasileiros que experimentam a fome, mas também para aqueles que se sensibilizam e desejam contribuir para mudar esse cenário.  

Nos últimos anos, milhões de brasileiras e brasileiros passaram a conviver com a fome ou com algum grau de insegurança alimentar, como denunciaram os Inquéritos da Insegurança Alimentar da Rede PENSSAN. Em 2022, mais de 33 milhões se encontravam nesta situação – uma realidade vergonhosa, que expõe violações ao direito constitucional à alimentação da população brasileira.  Além da privação de acesso aos alimentos, há que se considerar que situações de insegurança alimentar comprometem fortemente a alimentação adequada e saudável, sendo este um determinante para a alta morbimortalidade por doenças crônicas não transmissíveis. 

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Com a eleição de um novo governo, é oportuno somar esforços para superar o flagelo da fome, denunciado desde os anos 40 por Josué de Castro e tão presente 80 anos depois. Diante deste cenário político, nós, da rede PENSSAN, destacamos os pontos que consideramos essenciais para fazer avançar a pauta de promoção da segurança alimentar e nutricional para todos.

O primeiro ponto se refere a compreender os processos históricos geradores da fome e insegurança alimentar no Brasil. É importante destacar que o cenário atual não é apenas consequência da pandemia, mas sim reflete o tratamento político secundário dado às questões sociais no país, consoante ao modelo de desenvolvimento que se fez hegemônico. O aumento da prevalência da insegurança alimentar no Brasil é um problema nacional, no entanto se mostra mais sensível nas regiões norte e nordeste – e nos domicílios rurais, como denunciam os Inquéritos da rede. Além disso, existe um recorte de gênero e raça: mulheres da cor/raça preta ou parda são mais vulneráveis a situações mais severas de privação da alimentação.

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O cenário de fome e insegurança alimentar generalizada resulta de forma direta do desmonte do Estado brasileiro, a partir de 2016, com  a  desarticulação de arranjos institucionais, de políticas públicas  e de programas sociais fundamentais para redução da fome. É urgente retomar e fortalecer estruturas como o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN), o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), o Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA) e o Programa de Transferência de Renda conhecido como Bolsa Família.. Além disso, é preciso recriar o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA) e reajustar o orçamento necessário ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), dentre outros. 

Além de fortalecer esses e outros mecanismos, estruturantes para a superação das crises sistêmicas e redução da pobreza e fome no Brasil, é preciso investir em pesquisa para conhecer nossa realidade. O combate à fome exige produção, sistematização e disseminação de dados, censos, inquéritos, que orientem a ação pública e os movimentos sociais. Além do fomento científico, devem ser fortalecidas instituições como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que gera informações riquíssimas sobre as nossas diversidades regionais, étnicas, raciais e de gênero – nossa diversidade de ocupação do território brasileiro. 

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Diante do que vivemos nos últimos anos, temos um enorme déficit democrático a ser superado – na ausência de uma prioridade governamental e de espaço de participação efetivo da sociedade civil no governo, milhões de brasileiros tiveram seu direito à alimentação negado. Agora, um novo governo traz esperanças e desafios. Nós, como Rede PENSSAN, continuamos atentos e abertos ao diálogo com aqueles que desejam reduzir efetivamente o cenário da fome no país.

Sobre a Rede PENSSAN

A Rede PENSSAN (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional) tem como missão promover e fortalecer a pesquisa e a produção do conhecimento na área da soberania e segurança alimentar e nutricional, em relação com as ações de ensino, extensão, gestão, controle e participação social com vistas a contribuir com a realização do direito humano à alimentação adequada e saudável. 

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Estudo simula o início da esquizofrenia usando neurônios e minicérebros; redução de proteínas chama atenção

Em parceria com o Instituto D’Or de Pesquisas (IDOR) e com as Universidades Federais de São Paulo (UNIFESP) e do Rio de Janeiro (UFRJ), um estudo realizado no Laboratório de Neuroproteômica (LNP) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) encontrou padrões anormais na quantidade de proteínas do sistema nervoso que podem estar relacionados com o início da esquizofrenia. Os pesquisadores observaram modelos que simulam o comportamento da doença e notaram deficiências na produção de substâncias importantes para o processamento do material genético e o desenvolvimento do sistema nervoso, entre outras funções do organismo. Os dados obtidos estão alinhados com informações encontradas em pesquisas com cérebros póstumos de pacientes com esse transtorno e publicados nesta segunda (28), na revista “Cell & Bioscience”.

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Os pesquisadores mapearam a composição proteica de três modelos in vitro que simulam um ambiente nervoso afetado pela esquizofrenia: células não-diferenciadas provenientes de pessoas com o esquizofrenia (progenitoras), neurônios jovens e organoides cerebrais (órgãos em miniatura com características de um cérebro humano). “Vimos que as vias de formação de proteínas são algumas das mais afetadas pela doença, desde os progenitores e permanecendo em grande escala nos organoides cerebrais”, explica Juliana Minardi, professora da UNIFESP e uma das autoras do estudo. “Isto faz com que haja problemas no curso natural do desenvolvimento destas células neurais desde o princípio, ou seja, desde a formação de uma proteína”, complementa.

Ao todo, quase 6 mil proteínas foram identificadas nas amostras, das quais 1163 apareceram em quantidades atípicas nas amostras que representavam a esquizofrenia. Ainda, Minardi explica que boa parte dessas substâncias foi detectada em níveis inferiores do que o esperado para um organismo sadio. “As vias de processamento de RNA e de tradução de proteínas – moléculas e processos essenciais para a formação das dessas substâncias – se mostraram reduzidas ou com defeitos, causando essa diminuição nos níveis finais de proteínas”. Ela conta ainda que estes efeitos, a longo prazo, podem causar um atraso em diversos processos do desenvolvimento, “como o crescimento de neuritos, o amadurecimento celular e a formação de sinapses, por exemplo”.

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Para além dos modelos in vitro, os dados obtidos neste estudo são bem semelhantes àqueles encontrados em trabalhos anteriores com cérebros póstumos de pacientes com a doença. “Vimos que as alterações que a gente observou no cérebro de pessoas adultas com esquizofrenia também estão presentes nas células cultivadas e diferenciadas como células neurais desde os primeiros estágios do desenvolvimento”, pontua Daniel Martins-de-Souza, professor de bioquímica na Unicamp, coordenador do LNP e um dos autores do estudo. “Além de indicar que estamos conseguindo mimetizar in vitro os efeitos que foram de fato observados no cérebro de pacientes, nossos resultados corroboram a hipótese de que a esquizofrenia é uma doença do neurodesenvolvimento”, acrescenta.

Bradley Smith, que também colaborou para a obtenção e análise dos dados para a pesquisa, concorda com a importância dessa descoberta e salienta que se trata de “uma confirmação de que os modelos que usamos hoje em dia representam bem o que se vê num ‘organismo de verdade’”. Segundo Juliana Minardi, essas semelhanças indicam que os modelos in vitro, como os organoides cerebrais, podem ser utilizados como uma plataforma interessante para estudar o mecanismo da doença e constituem uma aposta promissora para o futuro. “Como não é possível obter amostras cerebrais de pacientes vivos, costumamos usar modelos animais para estudar as doenças do sistema nervoso”, diz Martins-de-Souza. “É muito legal saber que podemos produzir e usar essas células e versões em miniatura do cérebro”, completa. 

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Minardi comenta que o modelo pode, futuramente, trazer contribuições para a personalização dos tratamentos para a esquizofrenia. “Quem sabe um dia, com mais pesquisas e investimentos, possamos usá-los para desenvolver uma forma individualizada de entender a doença de cada paciente e o que funcionaria ou não, ou ainda montar plataformas com variabilidade genética para testar antipsicóticos e outros medicamentos de interesse”, diz a pesquisadora. Ela destaca ainda que, a longo prazo, os resultados do trabalho podem colaborar para a formulação de métodos para identificar a esquizofrenia logo no início do desenvolvimento do sistema nervoso. “Nosso estudo mostra que pode ser possível modelar o início da doença da esquizofrenia. Como próximos passos, podemos começar a definir se certas proteínas reduzidas durante o começo da doença, quando revertidas a valores similares ao controle, poderiam reverter alguns efeitos da doença”, propõe.

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Covid-19: vigilância de casos leves nos serviços de atenção primária à saúde poderia ter freado o contágio no Brasil

A atenção primária à saúde é a porta de entrada no sistema de saúde no Brasil. Na pandemia da Covid-19, seu potencial para prevenção, vigilância e atendimento de casos leves poderia ter evitado a sobrecarga de hospitais e emergências. A conclusão é de pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), do Instituto René Rachou (Fiocruz Minas) e da Escola de Administração de Empresas do Estado de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP) em artigo publicado nesta segunda (28) na “Revista Brasileira de Medicina da Família e Comunidade”.

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Os autores analisaram documentos publicados durante o primeiro ano da pandemia, como recomendações do Ministério da Saúde (MS) e de órgãos governamentais como o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS). Também compuseram a análise notas técnicas publicadas por sociedades científicas como a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC). O objetivo foi verificar os aportes técnicos para o trabalho na atenção primária à saúde, que compreende serviços como a Estratégia de Saúde da Família e procedimentos como vacinação e testagens.

A pesquisadora Michelle Fernandez, uma das autoras do artigo, explica que a atenção primária consegue chegar facilmente à população, pois tem capilaridade no território brasileiro e está presente em áreas de vulnerabilidade social. “Isto dá à atenção primária à saúde capacidade de mapear e recomendar isolamento de casos suspeitos, e esse é um mecanismo muito eficaz de desaceleração do contágio. Porém, no caso da Covid-19, não havia normativas do Ministério da Saúde indicando a atuação nesse sentido para frear o avanço naquele primeiro momento”, aponta.

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Fernandez observa que outros entes, como estados e municípios, organizaram o enfrentamento à Covid-19 diante da ausência de coordenação nacional. Mesmo passados quase três anos do início da pandemia, ainda é tempo para o MS atuar de forma mais assertiva em diversas frentes do combate à Covid-19, sobretudo na vacinação, destaca a pesquisadora: “Já temos vacina para toda a população maior de seis meses e atualizadas para as novas cepas, mas o Ministério da Saúde ainda não comprou as vacinas com essa atualização”, destaca.

Conforme a autora, também é fundamental que a gestão pública atente para o bem-estar dos profissionais da atenção primária à saúde, que atuam em diversas frentes desde o início da pandemia: “Temos profissionais lidando com novos casos na triagem e cuidando de pacientes na Covid longa, e boa parte dessa demanda chega pela atenção primária. Também temos profissionais trabalhando ativamente na vacinação. Eles estão sobrecarregados, com saúde mental debilitada, e o atual governo não estabeleceu política para cuidado desses profissionais”, frisa Fernandez.

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O estudo evidencia a importância da coordenação do Ministério da Saúde para a atuação bem-sucedida da atenção primária à saúde e de suas equipes em todo o Brasil. “Outro achado interessante é a participação de atores além dos estatais na ressignificação da política pública para a atenção primária à saúde”, completa Fernandez, mencionando a contribuição de redes e entidades científicas no período analisado.

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Hortas urbanas geram renda para sobreviventes de violência doméstica em SP, aponta livro

Tomada por carros, rodovias e prédios altos, parece difícil de imaginar áreas de cultivo de alimentos em uma cidade como São Paulo, mas elas existem. O livro “Agricultura na Cidade: o cultivo de alimentos e do comum pelas mulheres”,  lançado no dia 26 de novembro pela editora Ícone, mostra que estes espaços não apenas existem, mas também dão oportunidade para formação política e geração de renda de mulheres em situação de vulnerabilidade.

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A obra é fruto da tese de doutorado da socióloga Laura Carvalho, defendida na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) em 2021. Carvalho investigou projetos de agricultura urbana na zona leste de São Paulo e em bairros sociais de Lisboa, em Portugal. “Agricultura na Cidade” amplia o trabalho de Carvalho em parceria com a professora Márcia Tait, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Juntas, elas contextualizam o surgimento de hortas nas cidades, os problemas que as propriedades familiares enfrentam e trazem três exemplos chefiados por mulheres em São Paulo.

O foco no trabalho e geração de renda por mulheres não era a ideia inicial do projeto, mas foi uma questão imposta durante o andamento da pesquisa. “Todas tinham histórias de violência, então fui entender as origens disso”, conta Carvalho. “Atuar nessas hortas permitiu a elas se desvencilhar de situações de muita violência, seja do marido, do namorado ou de um terceiro”, aponta a socióloga. No livro, as autoras exploram apenas hortas urbanas com práticas agroecológicas chefiadas por mulheres. No cotidiano, são raros os casos em que há ajuda de parceiros, mas outros membros da família também atuam na produção, classificada como agroecologia familiar.

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Uma das características que as autoras observam nessas famílias é a maioria ser composta por pessoas de outras regiões do país, principalmente do Nordeste, que vieram para São Paulo em busca de trabalho. Assim, o cultivo se torna um negócio. Carvalho considera que existe um componente de empreendedorismo na prática da agroecologia urbana, principalmente entre as mulheres. Além disso, elas encontram também uma maneira de resgatar suas origens rurais, comuns entre os que chegam na capital paulista. “Elas têm uma memória afetiva com a agricultura, muitos vêm de fazendas, chácaras, da roça”, diz Carvalho.

Nos últimos anos, essas mulheres viram a demanda por alimento aumentar durante a pandemia. Em parceria com ONGs e empresas privadas, elas conseguiram se articular para oferecer assistência. Os problemas enfrentados pela agricultura familiar urbana durante a crise sanitária também é abordado em “Agricultura na Cidade”. “A fome piorou nesse período, as pessoas da região também estão em extrema vulnerabilidade nutricional e insegurança alimentar”, observa Carvalho.

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Para manter as hortas em funcionamento, a dupla destaca a importância de políticas públicas voltadas para a agroecologia urbana. “A prática é muito mais do que um método de produção de alimentos. Trabalha com questões estruturais, sociais, históricas, se articula em redes, promove a emancipação”, enumera a socióloga. “De fato transforma vidas das mulheres e de suas famílias”, afirma.

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Pesquisadores criam manual de referência para implementar Linha de Cuidado em Depressão em municípios brasileiros

A depressão é uma doença crônica complexa, que se expressa em diferentes formas, contextos e necessidades. Seu manejo requer recursos e estratégias que dependem de uma rede de saúde bem integrada e articulada, o que não corresponde à atual fragmentação do SUS (Sistema Único de Saúde) e do sistema de saúde suplementar no Brasil. Foi considerando este contexto que pesquisadores do Instituto de Pesquisa e Apoio ao Desenvolvimento Social (IPADS) se uniram à Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo e à Janssen, empresa farmacêutica da Johnson & Johnson, para elaborar a Linha de Cuidado em Depressão (LCD), lançada na sexta (25), um plano de ação para que gestores e profissionais da saúde possam montar estratégias para melhorar o cuidado em depressão no Brasil.

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O projeto envolveu oficinas de trabalho nos municípios paulistas de Valinhos e Vinhedo, com o teste de diferentes técnicas para ajudar gestores e trabalhadores da saúde a organizarem o itinerário terapêutico do paciente com depressão. A partir daí, foram elaborados três materiais de referência: um manual técnico voltado ao trabalhador, com informações acerca da doença e possibilidades de assistência envolvidas; um guia prático que revisa os protocolos existentes para a atuação de diferentes profissionais; e o manual do gestor, focado em subsidiar a tomada de decisão a gestores de municípios.

O objetivo é que qualquer um dos 5570 municípios brasileiros possa aplicar a LCD, seja esta cidade de pequeno, médio ou grande porte. “Se sou secretário da saúde do município e quero melhorar a atenção ao paciente na minha cidade, aqui tenho todos os instrumentos para executar isso. Então a gente fala como funciona e propõe indicadores que podem induzir o gestor a fazer a organização da sua linha”, explica Thiago Lavras Trapé, pesquisador do IPADS e coordenador do projeto. O material também conta com informações sobre os diferentes pontos de atenção para a depressão, incluindo os ideais de articulação entre os diferentes aparelhos da rede de saúde pública.

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Trapé explica que a ideia é organizar desde o diagnóstico até as formas de tratamento para as mais diversas intervenções necessárias, de forma que o gestor consiga olhar para sua rede, em uma cidade qualquer, e entender a linha de cuidado que organiza os três níveis: a clínica, com protocolos para profissionais como psicólogos, psiquiatras e enfermeiros; os serviços que precisam existir, como UPA (Unidade de Pronto Atendimento) e UBS (Unidade Básica de Saúde); e a relação que deve haver entre estes serviços. “Nosso grande interesse é influenciar a constituição de políticas públicas. Então a gente quer que o município, o estado e o governo federal se apropriem desse material e utilizem dele para subsidiar sua organização e planejamento”, diz Trapé.

“O suicídio é o desfecho ruim da linha de cuidado. A gente sabe que só consegue mudar o perfil do atendimento quando a política pública de fato se organiza, o gestor entende que é importante, há financiamento, treinamento, formação, divulgação, veiculação de materiais, educação permanente, aí sim isso chega no cidadão. Senão vira um projeto de gaveta, que é o que a gente não quer que aconteça”, conclui o pesquisador.

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