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Fragmentação do território amazônico em ilhas prejudica interações vitais entre as espécies, mostra estudo

Fragmentos florestais provocados pela ação humana na Amazônia não conseguem manter as mesmas interações ecológicas das áreas de vegetação contínua. Ou seja, a biodiversidade dessas áreas isoladas não funciona da mesma maneira como uma floresta contínua.  É o que mostra estudo publicado nesta quarta-feira (28) no periódico “Current Biology”, com a participação de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas, da Universidade Estadual de Santa Cruz e de outros pesquisadores brasileiros em instituições dos Estados Unidos e do Reino Unido.

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Os resultados são de uma análise da biodiversidade presente nas ilhas formadas pela inundação do reservatório da Usina Hidrelétrica Balbina, localizada em Presidente Figueiredo, no Amazonas. O estudo reanalisa um conjunto de dados obtidos pela pesquisadora Maíra Benchimol em 2012. Ela utilizou armadilhas fotográficas e percorreu trilhas dentro de 37 ilhas com remanescentes de floresta amazônica a fim de entender quais espécies ocorreram em cada local e o número de indivíduos. Assim, os autores do artigo combinaram os dados empíricos com modelos matemáticos para gerar as possíveis redes de interação entre predadores e suas presas.

“Balbina é uma hidrelétrica da década de 80. A construção foi marcada controvérsias devido ao seu impacto social e ambiental: uma área gigantesca foi inundada. A área de mata contínua foi fragmentada pela água. Assim, surgiram ilhas artificiais”, detalha o pesquisador Mathias Pires, um dos autores. Ele informa que algumas espécies foram extintas pela falta de indivíduos suficientes nessas ilhas. Dessa forma, as interações vão sendo perdidas à medida em que a área de habitat diminui, e a rede de interações perde suas características.

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O estudo analisou as consequências da criação de ilhas artificiais, mas a fragmentação da Amazônia também ocorre por outras formas, como pelo avanço descontrolado da agricultura e das pastagens. A coleção de pequenos fragmentos provocados pelo isolamento territorial dificulta a funcionalidade ecológica. Pequenas ilhas não conseguem manter, por exemplo, a função dos predadores que controlam as populações de presas, explica Pires.

As consequências para a biodiversidade são inúmeras, conforme prevê o cientista: nos locais em que os predadores não atuam muito, algumas espécies podem apresentar um aumento descontrolado em sua abundância. E esse excesso implica mudanças na vegetação. Por exemplo, as cutias favorecem algumas plantas por dispersarem suas sementes, mas podem prejudicar outras quando estão em alta densidade alterando a vegetação. Além disso, “os predadores como onças e jaguatiricas podem nadar e visitar algumas ilhas apenas para comer, assim reduzindo as populações de presas em alguns locais a níveis muito baixos.

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Os autores esperam que a divulgação do estudo mostre a importância das políticas públicas para evitar a fragmentação da Amazônia. Para Pires, as medidas precisam ir além de garantir a existência das espécies, ou seja, é necessário preservar áreas maiores de florestas que permitam um número de indivíduos suficiente para manter as interações e funções ecológicas.

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Incêndios florestais aumentaram no Sudoeste da Amazônia após novo Código Florestal

A Amazônia é a maior floresta tropical do mundo e desempenha um papel importante na regulação do clima global. Porém, o desmatamento contribui com a alteração dos ciclos das chuvas, provocando a intensificação da estação seca, o que aumenta a extensão da  vegetação nativa afetada por incêndios florestais. O crescimento contínuo das queimadas em Boca do Acre (AM) foi de 66% em 2012, ano de aprovação do novo Código Florestal, para 88% em 2019. As informações são de pesquisa realizada por cientistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) em parceria com outras instituições nacionais e internacionais, e publicada nesta terça (20) na revista “Fire”. 

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A pesquisa analisou dados de satélite das áreas queimadas entre os anos 2003 e 2019, em uma nova fronteira do desmatamento, no Sudoeste do Amazonas. Após o cruzamento dos dados, os cientistas ponderaram as informações acerca do clima, cobertura do solo, imóveis rurais e áreas protegidas. “O objetivo do estudo foi fornecer uma avaliação abrangente da extensão espacial e padrões de áreas queimadas, analisando o que, onde e o quanto mudou, para poder entender o processo do fogo na região do estudo”, explica a pesquisadora Liana Anderson, uma das autoras do estudo. No período estudado, a área anual afetada pelo fogo variou a partir de 33 km² e atingiu pico 681 km² em 2019.

O estudo também buscou compreender o processo das queimadas e os principais fatores que as influenciam. “Observamos a importância das áreas de proteção, como as unidades de conservação e terras indígenas, pois estas servem como barreiras para que o incêndio não adentre as regiões mais preservadas da Amazônia”, aponta a assistente de pesquisa Débora Dutra, que liderou o estudo. Em contrapartida, as áreas de pastagens e agricultura próximo às rodovias, como a BR-317, e as rotas utilizadas para transporte de madeira do desmatamento causam alterações nessas barreiras, deixando a floresta mais vulnerável aos incêndios florestais. 

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“O desmatamento tem uma relação com o fogo, pois a abertura de novas áreas expõe cada vez mais a floresta”, aponta Liana Anderson. Conforme o estudo, a tendência de desmatamento na região aumentou de 15% em 2012 para 91,60% em 2019. Observou-se também o avanço no desmatamento e do fogo nas áreas de florestas públicas ainda não designadas, indicando a necessidade urgente de políticas públicas para garantir a conservação destas áreas.

Segundo as pesquisadoras, a perspectiva para os próximos anos é um aumento significativo nos focos de fogo na região devido ao aumento do desmatamento e do processo de grilagem de terra, observado no estudo a partir do registro de imóveis rurais em áreas de florestas públicas em que ocorreram processos de desmatamento e incêndios florestais. “Se não tivermos políticas públicas e ações de controle contra atividades ilegais, como a extração de madeira sem autorização e desmatamento, podemos esperar que esta área se torne crítica tanto pelo aumento de conflitos quanto pela perda de serviços ecossistêmicos”, enfatiza Anderson. 

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Na Amazônia, amamentação diminuiu risco de malária em crianças menores de 2 anos

André Julião | Agência FAPESP – Estudo que acompanha crianças nascidas entre 2015 e 2016 na cidade de Cruzeiro do Sul, no Acre, encontrou uma associação entre o tempo de amamentação e o risco de infecção pelo Plasmodium vivax, parasita causador da malária. Entre 435 crianças acompanhadas até o segundo ano de vida, aquelas que foram amamentadas por um ano ou mais tiveram uma chance 79,8% menor de serem infectadas.

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Os resultados, publicados no Pediatric Infectious Disease Journal, foram obtidos no âmbito do “Estudo MINA – materno-infantil no Acre: coorte de nascimentos da Amazônia ocidental brasileira”, realizado com apoio da FAPESP na região conhecida como Vale do Juruá, que responde por 18% dos casos de malária no país.

“Em um trabalho anterior, vimos que a incidência de casos de malária notificados foi baixa ao longo do primeiro ano de vida e aumentou de forma pronunciada no segundo ano. Fizemos sorologia para identificar infecções não notificadas e vimos que a exposição ao Plasmodium vivax foi muito maior do que registrado. No primeiro ano, 77% das infecções não foram diagnosticadas e, nos primeiros dois anos, ao menos metade das infecções não teve diagnóstico e, portanto, não foi tratada com antimaláricos”, conta Anaclara Pincelli, primeira autora do estudo, realizado durante doutorado no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) (leia mais em: agencia.fapesp.br/36352/).

O trabalho foi realizado sob orientação de Marcelo Urbano Ferreira, professor do ICB-USP.

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Nos dois primeiros anos de vida, 665 crianças foram acompanhadas pelo estudo, mas só foi possível coletar amostras de sangue de 435. Os pesquisadores fizeram testes sorológicos para três diferentes antígenos do parasita para identificar a exposição das crianças ao Plasmodium vivax, que provoca a malária quando inoculado pela picada de mosquitos.

“Muitos casos são assintomáticos ou com sintomas leves, o que faz com que nem todos busquem auxílio médico e sejam testados. Além disso, os níveis do parasita no sangue podem estar indetectáveis pelo exame de microscopia, usado para diagnosticar a infecção”, explica Marly Augusto Cardoso, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) e coordenadora do Estudo MINA.

O trabalho é o primeiro a relacionar o aleitamento materno como fator de proteção contra o Plasmodium vivax, responsável por 85% dos casos de malária na região.

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Os poucos estudos que se debruçaram sobre a relação entre amamentação e malária foram realizados na África Subsaariana, onde predomina outra espécie do parasito, o Plasmodium falciparum, causador de formas mais graves da doença.

Leite materno protetor

O estudo detectou ainda que malária na gestação foi um dos principais fatores associados com aumento de risco de malária nos primeiros dois anos de vida.

Em se tratando de uma região endêmica da doença, os pesquisadores acreditam que a testagem contínua, pelo menos nas consultas de rotina, seria uma forma de compreender melhor o impacto da exposição à doença nas crianças.

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Além disso, eles ressaltam a importância do aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de vida e continuado pelo menos até 2 anos de idade, como recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em média, nessa população, a amamentação exclusiva ocorreu apenas até os primeiros 16 dias de vida, quando foram introduzidos outros alimentos não recomendados.

“Nossa ideia agora é analisar não apenas os dados de malária até os 5 anos de idade, como também verificar o impacto da doença no desenvolvimento das crianças”, encerra Cardoso.

Pela apresentação do trabalho na 8th International Conference on Plasmodium vivax Research, ocorrida em abril, Anaclara recebeu como prêmio na categoria para estudantes uma ilustração com os resultados do estudo.

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O artigo Prolonged Breastfeeding and the Risk of Plasmodium vivax Infection and Clinical Malaria in Early Childhood: A Birth Cohort Study pode ser lido em: https://journals.lww.com/pidj/Citation/2022/10000/Prolonged_Breastfeeding_and_the_Risk_of_Plasmodium.2.aspx.

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Cobertura sobre mudanças climáticas falha por ser distante, com termos técnicos e limitada à Amazônia, aponta estudo

O jornalismo é um instrumento para abertura de discussões e conscientização a respeito das mudanças climáticas, mas a cobertura do tema pela grande mídia precisa se aproximar mais do público, diminuir os termos técnicos, ir além das pautas sobre Amazônia e denunciar as causas e responsáveis pelas crises ambientais. É o que apontam ativistas em pesquisa desenvolvida pelo Instituto Modefica, uma organização sem fins lucrativos, junto com pesquisadores do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Os dados estão descritos em relatório divulgado na quarta-feira (14) no site do Instituto Modefica.

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Para isso, inicialmente foram feitas pesquisas no Scielo e Google Scholar para identificar referências publicadas ao longo dos últimos cinco anos, e, questionários digitais foram distribuídos por meio das redes sociais do Modefica para selecionar jovens ativistas dentro da faixa etária de 18 a 35 anos, que pudessem colaborar com o estudo. Foram realizados dois grupos focais em cada uma das cinco regiões do Brasil, totalizando 60 participantes, sendo 13 do Norte, 13 do Nordeste, 11 do Centro-Oeste, 11 do Sudeste e 12 do Sul.

Os encontros com ativistas duraram em média duas horas e ocorreram de forma remota, pela plataforma Zoom, entre os dias 22 de junho e 20 de julho de 2022. As discussões foram mediadas pelas pesquisadoras e divididas em duas partes: a primeira com perguntas gerais sobre engajamento e jornalismo climático. A segunda, com apresentação de duas reportagens, sendo uma produzida pela TV Cultura sobre o desmatamento na Amazônia e outra produzida pelo portal Brasil de Fato, que aborda possíveis soluções para a crise climática. No final, coletivamente foi discutido o papel do jornalismo no enfrentamento das mudanças climáticas. Esses dados foram transcritos e processados por meio de uma análise qualitativa de conteúdo.

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Para Marina Colerato, esta pesquisa verifica a importância do jornalismo como um uma ferramenta de conscientização, essencial para a luta contra a crise climática, devido ao seu alcance e credibilidade perante ondas de desinformação. “Acreditamos que as mudanças necessárias para redução dos danos climáticos dependem de um amplo entendimento e engajamento cívico” afirma Colerato. Os dados levantados por meio dos ativistas apontam também para a necessidade de apreciar os defensores da floresta e escutar outras fontes, além de cientistas, como aquelas diretamente afetadas pelas consequências das crises climáticas. Além desses, as discussões nos grupos focais também demonstraram um anseio pela indicação por parte dos veículos da grande mídia sobre os maiores responsáveis pelas catástrofes climáticas, sendo a agropecuária o setor mais criticado.

Ainda há poucos estudos, principalmente na área que compreende o “Sul Global” – países em desenvolvimento – que abordam a comunicação climática se debruçando sobre as percepções públicas a respeito das mensagens jornalísticas. “Este estudo é uma contribuição para identificarmos compreensões e demandas associadas às diferentes realidades do nosso país, necessárias para pensarmos em estratégias mais alinhadas com a cultura e o dia a dia de cada lugar” discorre Colerato. Futuramente, as jornalistas vislumbram que o trabalho possa ser utilizado como base para aprofundar os entendimentos, com amostras mais representativas e outros públicos, e servir como indicativo para formas de cobrir a pauta climática mais próximas aos leitores.

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Acumulado de focos de calor na Amazônia em agosto e setembro de 2022 foi o maior desde 2010

Ricardo Muniz | Agência FAPESP – Artigo publicado na revista Nature Ecology & Evolution este mês verificou que o acumulado de focos de calor na Amazônia em agosto e setembro de 2022 foi o maior desde 2010. Além do volume recorde, superior a 74 mil focos, o grupo de pesquisa verificou que sua causa não resultou de seca extrema, como 12 anos atrás, mas de ações humanas recentes de desmatamento.

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“A ideia da publicação surgiu quando analisamos dados fornecidos gratuitamente pelo Programa Queimadas do Inpe”, conta Guilherme Mataveli, pesquisador de pós-doutorado na Divisão de Observação da Terra e Geoinformática do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e bolsista da FAPESP.

Geralmente a ocorrência do fogo aumenta tipicamente nesses dois meses, que correspondem ao período em que as condições meteorológicas são mais favoráveis para a queima em cerca de metade da Amazônia. “Mas a grande incidência de queimadas em 2010 foi explicada por um evento de seca extrema que ocorreu em grande parte da Amazônia. Já em 2022 não houve nada semelhante, ou seja, o aumento nos focos de calor estava claramente relacionado com outros fatores”, explica Mataveli, que estuda – utilizando sensoriamento remoto e modelagem – a influência do uso e da cobertura da terra nas emissões de material particulado fino por queimadas nos biomas Amazônia e Cerrado.

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Quando o grupo de cientistas analisou onde os focos de calor ocorreram, baseado em outro dado fornecido gratuitamente no portal TerraBrasilis do Inpe, observou que a maioria (62%) havia ocorrido em áreas de desmatamento recente. Além disso, comparando ao mesmo bimestre de 2021, a ocorrência de focos de calor em áreas de desmatamento recente nos meses de agosto e setembro disparou 71%; e os alertas de desmatamento emitidos pelo Sistema Deter do Inpe corroboraram a análise, indicando que a área desmatada foi 64% maior.

“Outra análise que apresentou resultado preocupante foi a localização desses focos de calor em relação à classe fundiária, ou seja, se ocorreram em terras públicas, minifúndios ou propriedades privadas de pequeno a grande porte”, diz Mataveli. A informação também consta no portal TerraBrasilis do Inpe e é baseada no Cadastro Ambiental Rural (CAR), instrumento essencialmente autodeclaratório por meio do qual o proprietário de um imóvel rural submete informações sobre as características ambientais do seu imóvel ao órgão responsável. Dos focos de calor detectados em agosto e setembro de 2022, 35% ocorreram em terras públicas em que o CAR não é requerido, como Unidades de Conservação e Terras Indígenas. Houve alta de 69% dos focos de calor nessas áreas sem o CAR ante o mesmo bimestre de 2021. “Nos últimos anos, a Amazônia se tornou mais vulnerável à grilagem e esse aumento expressivo das queimadas é um dos resultados do processo”, afirma o pesquisador.

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Metas climáticas

O avanço de fogo, desmatamento, a degradação florestal, mineração ilegal e grilagem na Amazônia contraria as metas estabelecidas internacionalmente pelo Brasil para combater o aquecimento global, como zerar o desmatamento ilegal até 2028 e diminuir até 2030 em 50%, quando comparadas aos níveis de 2005, as emissões de gases do efeito estufa.

Além dos seus impactos negativos sobre a biodiversidade e a manutenção de serviços ecossistêmicos essenciais para a vida humana, como a regulação climática, o desmatamento sem controle e atividades associadas, colocam em risco a economia brasileira. Mercados compradores de commodities, como a União Europeia, estão no processo de aprovar novas regulamentações que impedem a compra de bens produzidos em áreas desmatadas ou degradadas.

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“Este artigo aponta um problema sistêmico que deve ser seriamente enfrentado pela sociedade. A reversão desse quadro passa pela punição de infratores, implementação de políticas públicas eficientes, comunicação com a sociedade e busca por soluções alternativas, baseadas em ciência de ponta, que sejam sustentáveis para o desenvolvimento da região”, alerta Luiz Aragão, coautor do artigo.

“Identificar e responsabilizar aqueles que estão destruindo ilicitamente a maior floresta tropical do mundo é uma das tarefas desafiadoras na agenda ambiental a serem enfrentadas pelo governo federal que se inicia em 2023”, diz o cientista, que assina o artigo ao lado de Luciana Vanni Gatti e Nathália Carvalho (do Inpe), Liana Oighenstein Anderson (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), Gabriel de Oliveira (Universidade do Sul do Alabama), Celso H. L. Silva-Junior (Universidade da Califórnia, Instituto de Tecnologia da Califórnia e Universidade Federal do Maranhão) e Scott C. Stark (Universidade Estadual de Michigan).

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AragãoAnderson e Gatti também são apoiados financeiramente em suas pesquisas pela FAPESP.

O artigo Record-breaking fires in the Brazilian Amazon associated with uncontrolled deforestation pode ser encontrado em: www.nature.com/articles/s41559-022-01945-2. Também está disponível em: https://rdcu.be/cZT77.

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Os históricos problemas de acesso à água na Amazônia

Por Milena Pinho Barbosa e Leonardo Capeleto de Andrade

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O Novo Marco Legal do Saneamento foi aprovado em 2020, visando a universalização dos serviços de água e esgoto – um dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU –, mas esta ainda é uma realidade distante no Norte do Brasil. Dois anos após a aprovação, pouco mudou em muitas cidades do interior da Amazônia, como é o caso de Tefé, no Amazonas.

Tefé se localiza no coração da Amazônia. Seu acesso ocorre apenas por barco ou avião – não havendo estradas que a liguem a outras cidades – e exerce uma liderança como lugar mais estruturado do Médio Solimões, com uma estimativa populacional de 59 mil habitantes. Mas apesar de toda sua influência no território, as infraestruturas não acompanharam o seu crescimento, principalmente em relação ao saneamento e o tratamento de água.

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Apesar de possuir mais de 300 anos, a cidade segue com problemas de saneamento não muito diferentes dos que foram reportados pelos naturalistas alemães Spix e Martius e o inglês Henry Bates, durante suas expedições científicas que buscavam estudar a sociobiodiversidade dessa região, no início do século XIX.

Em 1718, Tefé era um pequeno povoado constituído por casas de taipas, ruas de grama e praia arenosa. E por mais de 200 anos, toda a população captava suas águas diretamente do lago que margeia a cidade e dos igarapés ao entorno. Até a primeira metade do século XX, a água do lago era consumida sem nenhum tipo de tratamento, contribuindo para a proliferação de doenças, como as varíolas e a cólera.

Somente em 1954 foi instalada a primeira estrutura hidráulica para abastecimento de água domiciliar em Tefé, abrangendo apenas 15% da população. Com o crescimento populacional que se intensificou a partir da década de 1960, a cidade seguiu sem uma oferta que suportasse essa nova demanda. Mesmo após a abertura dos poços em 1980, esse sistema se mostrou insuficiente, realidade que seguiu até a década de 2000.

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Em 2022, apesar das melhorias de acesso e infraestrutura, Tefé – como tantas outras cidades no interior da Amazônia – ainda enfrenta problemas de acesso à água limpa e tratada, gerando uma explotação de água clandestina por parte da população, que busca uma solução através da perfuração de seus próprios poços para fonte de água.

Se em 1800 a contaminação das águas do lago ocasionava doenças na população de Tefé, mais de dois séculos depois são os poços de abastecimento fora do padrão de potabilidade que afetam os moradores do município – devido à contaminação por Escherichia coli.

Com a oferta das águas sem tratamento, recai sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) a responsabilidade da distribuição para toda população dos pequenos frascos de hipoclorito de sódio (“cloro”) – a forma de tratamento mais comumente utilizada na região –, além de tratar dos casos de infecção derivados da não utilização destes.

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No ano em que comemoramos o Bicentenário da Independência do Brasil, a realidade vivenciada pela população amazônica em relação ao acesso a infraestrutura e políticas públicas voltadas para o tratamento de água e esgoto contrasta com o propósito estipulado pelo Novo Marco Legal de Saneamento. Se o direito de acesso à água tratada e limpa por todo o cidadão é lei, cabe ao poder público disponibilizar os instrumentos necessários para sua efetuação. No entanto, na Amazônia Central, atualmente essa realidade é tão distante quanto há dois séculos atrás.

Sobre os Autores

Milena Pinho Barbosa é natural de Tefé (AM), acadêmica de História na UEA (Universidade Estadual do Amazonas) e bolsista PIBIC (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Cientifica) do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) no Grupo de Pesquisa em Inovação, Desenvolvimento e Adaptação de Tecnologias Sustentáveis (GPIDATS) do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM).

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Leonardo Capeleto de Andrade é pós-doutorando no Instituto de Geociências (IGc) da Universidade de São Paulo (USP) na área de águas subterrâneas e Pesquisador Associado do GPIDATS/IDSM na área de Tratamento de Água para comunidades ribeirinhas amazônicas.

Glossário

  • Novo Marco Legal do Saneamento – “Atualiza o marco legal do saneamento básico e altera a Lei nº 9.984/2000, para atribuir à Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) competência para editar normas de referência sobre o serviço de saneamento” (Lei nº 14.026/2020);
  • Médio Solimões – região central do Rio Solimões que compreende treze municípios do estado do Amazonas;
  • Casas de taipas – construções de “pau a pique”, com estruturas de madeira e revestidas de barro;
  • Igarapés – termo amazônico para pequenos cursos d’água (“riacho”);
  • Explotação – retirada dos recursos naturais para fins de beneficiamento, transformação e utilização;
  • Padrão de potabilidade – conjunto de valores permitidos para os parâmetros da qualidade da água que não ofereçam riscos à saúde humana (PORTARIA GM/MS nº 888/2021);
  • Escherichia Coli – bactéria encontrada no trato gastrointestinal de animais e indicadora de poluição por esgotos.

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Encontrada na Amazônia, resina de jutaicica pode ser opção sustentável para produção de verniz

O extrativismo de uma resina conhecida como jutaicica na região de Santarém (PA) pode estimular a economia local e o produto pode ser um bom substituto da resina de origem do petróleo na produção de verniz, já que não causa impactos ambientais. As conclusões fazem parte de um artigo publicado nesta segunda (14) na revista “Rodriguésia” que investigou as propriedades da resina para compreender os desafios da reintegração do material no mercado. O estudo foi feito por cientistas da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

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Os primeiros registros do uso da resina de jutaicica – árvores que são nacionalmente conhecidas como jatobás – são do século 18. O material era diluído em óleos, como de linhaça, e usado para revestir madeiras nobres de longa duração, como a de carruagens da aristocracia. O resgate histórico feito pelos cientistas mostrou que a resina natural já foi um produto economicamente importante na região amazônica, em especial no estado do Pará, mas, com o avanço da indústria petroquímica, ela foi substituída por subprodutos do petróleo.

Atualmente, a resina encontrada, por exemplo, em Santarém é usada para fins artesanais, como o revestimento e impermeabilização de panelas de barro. Por isso, o extrativismo acontece em pequena escala e não tem grande representatividade econômica. Por meio de análise de amostras, a equipe descobriu que o material empregado é heterogêneo e que vem de duas espécies diferentes de árvores da região. Um dos objetivos do trabalho foi descrever o produto para considerá-lo uma opção mais sustentável dentro do mercado, por ser extraído dos troncos e coletado no chão, sem a necessidade de derrubar árvores.

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A equipe observou que o conhecimento tradicional sobre o extrativismo e uso não está sendo repassado para gerações mais jovens. Segundo Leandro Giacomin, um dos autores do artigo e professor da Universidade Federal da Paraíba, a representatividade da Amazônia em termos de produção vegetal nacional é muito baixa e cerca de 80% está associada à extração de madeira. “Introduzir cadeias produtivas sustentáveis de alto impacto e com valor agregado geraria uma revolução em termos de economia para as famílias locais”, afirma Giacomin. “A fonte de renda delas estaria associada a um produto que cresce naturalmente”, avalia. Quanto ao uso do verniz em escala industrial, o pesquisador João José Lopes Corrêa, também autor do estudo, comenta que ainda há um longo caminho a ser percorrido. “Em um primeiro momento ele poderia ser integrado ao mercado para trabalhos especiais, como restauração de mobiliário e obras de arte, por exemplo”, explica.

Outra atividade econômica muito importante na região é o ecoturismo, que também tem muito a ganhar com o extrativismo da resina natural. “O extrativismo sustentável é associado ao ecoturismo, os turistas que visitam ali querem ver árvores de onde vêm os pigmentos, os vernizes, as sementes para artesanato”, comenta o pesquisador. “Isso demanda compreensão por parte da população do valor desses produtos, para que essas pessoas queiram fazer parte dessa cadeia”, aponta.

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Para Giacomin, é importante que haja investimento em ciência e tecnologia para fomentar o conhecimento sobre os produtos que a Amazônia pode oferecer de forma mais sustentável. “Há uma necessidade emergencial de mudança do modelo de desenvolvimento econômico atual, especialmente na Amazônia, então qualquer produto que não tenha impacto e que estimule comunidades locais configura um ótimo modelo, e o primeiro passo é abrir um leque de opções que podem ser exploradas”, defende Giacomin. “Se a gente não mudar, a floresta vai para o chão e as consequências são catastróficas”, completa o pesquisador.

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Após estímulo do atual governo e das Forças Armadas à destruição da Amazônia, país deve investir na sociobiodiversidade da floresta

Há uma visão dominante entre membros do atual governo de que a Amazônia precisa ser ocupada, de forma rápida e através de atividades agropecuárias e extrativistas, para garantir a soberania do território brasileiro. Tais atividades são defendidas pelas Forças Armadas, influenciada por discursos consolidados no período da ditadura militar, de que a proteção viria da exploração. Esta concepção vai na contramão de uma economia de conhecimento da natureza, que poderia trazer diversos benefícios econômicos, sociais e ambientais ao país, incluindo o combate à criminalidade, a valorização da cultura, o aumento de investimentos estrangeiros para preservação e oportunidades de uso sustentável da floresta. Este panorama é descrito por Ricardo Abramovay, professor sênior na Universidade de São Paulo (USP), em artigo publicado na segunda (31) na revista “Estudos Avançados”.

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O artigo traz uma narrativa que, nas palavras de Abramovay, funciona quase como uma denúncia. Trechos de discursos evidenciam a visão do governo brasileiro, resumida na fala do vice-presidente Hamilton Mourão no Webinar Brasil 2020 – 200 anos de Independência: “Uma das maiores questões que ameaça a soberania é a sustentabilidade.” O autor descreve o panorama da precariedade da governança florestal no Brasil, ilustrando a visão governamental e as reações da sociedade civil, ativistas, cientistas, empresas e governos estaduais ao aumento da destruição visto nos últimos anos.

Para Abramovay, tal visão vem do desconhecimento aliado a compromissos políticos e resulta na intensa destruição da Amazônia, acompanhada pelo fortalecimento de atividades ilegais e criminosas. Este processo envolve o desvirtuamento da função das Forças Armadas: “Em vez de protegerem a floresta e as populações da Amazônia, estão, sob o pretexto da soberania nacional, protegendo e estimulando a criminalidade, a destruição da floresta, o tráfico de madeira, o garimpo de ouro e a grilagem de terras.”

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O pesquisador cita o combate à criminalidade como um dos possíveis benefícios de olhar a floresta amazônica de forma mais sustentável. O combate à emissão de gases emissores de efeito estufa também seria beneficiado pela redução do desmatamento, uma de suas principais causas. Além disso, a grande sociobiodiversidade das florestas tropicais detém alto potencial de geração de renda, luta contra a pobreza e inovação científica e tecnológica: “Estes militares preconizam formas de uso do território que não são capazes de aproveitar conhecimentos de povos da floresta e aquilo que a ciência hoje tem de mais avançado para dizer a respeito do uso sustentável da biodiversidade”, diz Abramovay.

Diante da destruição acentuada nos últimos anos, ativistas, empresários e outros atores relevantes têm se posicionado a favor de um novo olhar para a Amazônia. Para Abramovay, a unidade crescente entre os diversos setores da sociedade é fundamental neste cenário: “As práticas econômicas destrutivas são norteadas por uma cultura, por um jeito de olhar para o território, que tem de mudar e vai mudar, as vantagens de uma nova visão tem de aparecer e isso é fundamental”.

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Incêndio na Amazônia está mais ligado ao uso do fogo em pastagem e ao desmate do que à seca, diz estudo

Luciana Constantino | Agência FAPESP – Um estudo brasileiro mostra que o uso descontrolado do fogo pelo homem tem mais influência do que a seca nas queimadas registradas em toda a Amazônia entre os anos de 2003 e 2020. Segundo os autores, a maioria dos períodos com alto número de focos de incêndios está mais relacionada com as queimadas agrícolas e com o desmatamento do que com as condições de seca extrema.

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Em média, 32% das áreas queimadas anualmente no bioma foram em terras agrícolas (dominadas por pastagens), seguidas por campos naturais (29%) e áreas de florestas maduras (16%). Ao avaliar o desmatamento e as anomalias de déficit hídrico, o primeiro fator contribuiu mais do que o segundo para os incêndios no período analisado.

Além disso, ao inovar e ampliar o escopo de análise para as regiões amazônicas dos nove países com a floresta em seus territórios, o trabalho mostrou que Brasil e Bolívia responderam juntos pela maior parte das detecções anuais de focos de fogo no período. Isso representa, no caso brasileiro, em média, mais da metade das áreas queimadas anualmente na Amazônia e, em terras bolivianas, cerca de um terço.

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Embora 63% da Amazônia esteja em território brasileiro, a floresta se estende por Peru, Bolívia, Colômbia, Venezuela, Suriname, Guiana, Guiana Francesa e Equador, abrangendo uma área total em torno de 6,67 milhões de quilômetros quadrados (km²), considerando o limite da Amazônia lato sensu).

O estudo contou com a participação de cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). O artigo é parte de uma edição especial da revista científica Global Ecology and Biogeography que visa discutir a crescente ameaça de incêndios florestais no mundo.

Atualmente, o Brasil voltou a ter um elevado número de queimadas na Amazônia – o acumulado dos nove primeiros meses deste ano, especialmente em agosto e setembro, foi o pior desde 2010, quando ocorreram 102.409 focos, de acordo com dados do Programa Queimadas, do Inpe. Simultaneamente, a partir de 2019, as taxas de desmatamento no bioma têm atingido os maiores patamares desde 2009, excedendo anualmente 10 mil km² de florestas desmatadas. A tendência vem se mantendo neste ano de acordo com os alertas do sistema DETER.

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“A literatura científica sobre incêndios na Amazônia estava mais centrada no território brasileiro. Ampliamos esse escopo para os outros países, buscando entender onde a atividade do fogo está sendo mais crítica e merece atenção, olhando para diferentes coberturas e usos do solo. Detectamos que a agricultura, especialmente no Brasil, onde majoritariamente é pastagem, adota o fogo como técnica para renovação da vegetação, mas sem manejo adequado. Com isso, o risco de escapar e atingir a floresta é grande”, avalia Marcus Vinicius de Freitas Silveira, doutorando na Divisão de Observação da Terra e Geoinformática (DIOTG-Inpe) e primeiro autor do trabalho.

Para o pesquisador Luiz Eduardo Oliveira e Cruz de Aragão, chefe da DIOTG-Inpe e um dos autores do artigo, o trabalho avançou ao trazer a ampliação da área geográfica analisada e a abrangência de quase 20 anos de dados. “Com esse longo período, conseguimos identificar anomalias dentro da série temporal, como em 2020. Os resultados mostram a disseminação do uso do fogo em toda a Amazônia tanto em processos para corte e queimada de floresta como para a continuidade no manejo de pastagens”, completa.

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Aragão coordena o grupo TREES (Tropical Ecosystems and Environmental Sciences lab) e participa do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), no âmbito do qual o estudo foi conduzido. O financiamento se deu por meio de três projetos (16/02018-220/16457-3 e 20/15230-5).

Como disse o pesquisador, 2020 apareceu como uma das “anomalias da série temporal”. De acordo com o estudo, naquele ano, que coincide com um enfraquecimento de operações de controle ambiental decorrente, entre outros motivos, da pandemia de COVID-19, a área queimada foi a maior desde 2010 para a Floresta Amazônica.

Incêndios sem precedentes também atingiram o Pantanal em 2020. Naquele ano, esse bioma teve um encolhimento da superfície hídrica 34% acima do que a média anual, segundo trabalho publicado em julho por pesquisadores, incluindo Aragão e a cientista Liana Anderson, outra autora do trabalho sobre a Amazônia.

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Assim como na floresta tropical, no Pantanal os incêndios foram uma consequência da intensificação das atividades humanas relacionadas ao fogo. Dos focos de queimadas em 2020, 70% ocorreram em propriedades rurais, 5% em Terras Indígenas e 10% em áreas protegidas, como mostrou a pesquisa, que também recebeu apoio da FAPESP.

Segundo Liana Anderson, a principal ação de curto prazo para diminuir o risco de incêndios florestais na Amazônia é extinguir o desmatamento ilegal na região e atacar os problemas de grilagem de terras. “Concomitante a isso, a capacitação e a disseminação de técnicas para manejo da terra livre do uso do fogo são cruciais para minimizar o risco crescente de grandes incêndios. Tanto a paisagem cada vez mais fragmentada como um clima mais quente e com menos chuvas levam ao aumento da flamabilidade”, diz a cientista.

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O pesquisador Celso Silva-Junior destaca a situação do Maranhão, zona de transição entre o bioma amazônico e o Cerrado e que também experimentou um aumento de 18% em focos de calor entre janeiro e setembro deste ano comparado ao mesmo período em 2021. “Assim como observado em nosso artigo, a atividade recente do fogo nessa região está intimamente ligada ao desmatamento, induzido não somente pelos retrocessos ambientais federais, mas também aos retrocessos em nível estadual.”

Impactos

O fogo está entre os principais tipos de distúrbios responsáveis pela degradação na Amazônia, com impactos negativos na estrutura e dinâmica da floresta. Esses efeitos podem comprometer os estoques de carbono e a capacidade das árvores de capturar CO2.

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Os incêndios afetam ainda a saúde de moradores da região, acentuando a poluição do ar e levando a internações por doenças respiratórias. Relatório produzido pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps) em parceria com o Ipam Amazônia e a Human Rights Watch indicou que as queimadas associadas ao desmatamento na Amazônia levaram a 2.195 internações por doenças respiratórias em 2019, das quais 49% foram de pessoas com 60 anos ou mais e 21% de bebês com até 1 ano.

Ainda em 2019, a tarde de 19 de agosto virou noite em São Paulo, em parte pela fumaça das queimadas da Floresta Amazônica que se somou a um fenômeno causado por nuvens carregadas muito baixas que esconderam a luz do Sol (leia mais em: agencia.fapesp.br/31280/).

Dados

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Na pesquisa publicada na Global Ecology and Biogeography, o grupo levou em consideração séries temporais de detecção de focos de fogo e áreas queimadas, fazendo um cruzamento anual das regiões afetadas com os vários tipos de uso e cobertura da terra.

Além disso, o território da Amazônia foi dividido em células de grade (de 10 km por 10 km), identificando anomalias anuais na ocorrência de focos de fogo, precipitação pluviométrica, máximo déficit hídrico acumulado e desmatamento.

Os resultados mostraram que, entre 2003 e 2020, o Brasil sozinho concentrou, em média, 73% das detecções anuais de focos de fogo na Amazônia, seguido pela Bolívia, com 14,5%, e Peru com 5,3%. Dividindo os focos de fogo de cada região amazônica pela área total, a maior densidade ocorreu na Bolívia, com uma média de seis focos por 100 km2/ano, seguido pelo Brasil, com três por 100 km2/ano.

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As ocorrências foram maiores na década de 2000, associadas a elevadas taxas de desmatamento na Amazônia brasileira, atingindo valores mais baixos entre 2013 e 2014 e aumentando novamente nos anos seguintes.

Em termos de área queimada, Brasil e Bolívia contribuíram, em média, com 56% e 33%, respectivamente, do total anual na Amazônia ao longo da série. Venezuela e Colômbia vieram em seguida, com cerca de 4% cada uma. Embora o Peru tenha sido a terceira região amazônica mais relevante em focos, registrou apenas 0,63% do total anual de área queimada.

Quando os cientistas analisam o tipo de uso do solo, as terras agrícolas (lavouras e pastagens), campos naturais, florestas maduras e áreas úmidas foram os que mais queimaram ao longo da série histórica – em média, 32%, 29%, 16% e 13%, respectivamente, da área total anual queimada.

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As terras agrícolas também compartilharam a maior proporção da área total anual queimada na região amazônica do Brasil (48%) e do Peru (51%), enquanto as florestas maduras foram as mais afetadas no Equador (76%) e outras áreas úmidas na Guiana (46,5%).

“Se pensarmos que o fogo é uma ferramenta de gestão das áreas abertas para a agricultura, seja de plantio ou de pastagem, percebemos que essa técnica coloca em risco não só a floresta e sua biodiversidade como também a própria evolução da agricultura na região para um sistema mais sustentável. A solução seria buscar um planejamento estratégico do uso da terra, que envolvesse vários níveis governamentais e da sociedade, incluindo treinamento de pessoas e facilitação para o uso de técnicas mais avançadas”, diz Aragão.

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O artigo Amazon fires in the 21st century: The year of 2020 in evidence pode ser lido em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/geb.13577.

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Os candidatos à Presidência e o meio ambiente na Amazônia

Por Philip M. Fearnside

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Os dois candidatos que lideram as pesquisas eleitorais para a Presidência da República têm programas e históricos contrastantes com relação ao meio ambiente na Amazônia. O candidato Jair Bolsonaro (PL) considera preocupações ambientais como impedimentos à exploração (predatória) das riquezas da região amazônica e pretende continuar as suas políticas que enfraqueceram o controle ambiental no atual governo. O candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dá muito mais espaço ao meio ambiente no seu programa de governo e destaca a necessidade de reconstruir os órgãos ambientais que têm sido desmontados desde o início do governo Bolsonaro, como Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e Fundação Nacional do Índio (Funai). Também promete defender terras indígenas e retirar garimpeiros.

Mesmo com estes sinais positivos, há áreas que precisarão de cuidado em um eventual governo Lula. A questão de hidrelétricas na Amazônia tem enormes consequências em potencial, incluindo a remoção das populações nas áreas inundadas e a eliminação dos seus meios de sustento, a devastação da pesca que sustenta as populações ribeirinhos tanto rio abaixo quanto acima das barragens, e a emissão de metano, um poderoso gás de efeito estufa. O histórico dos governos do PT na construção de Santo Antônio, Jirau e Belo Monte é preocupante. Lula tem falado que faria Belo Monte de novo e que a população local foi beneficiada devido aos gastos do projeto na parte social.

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Com relação à rodovia BR-319 (Manaus-Porto Velho), que, junto com estradas laterais planejadas, abriria uma enorme área de floresta amazônica à entrada de desmatadores a partir do “arco do desmatamento”, Lula tem dito que o projeto pode ir para frente desde que haja governança. Infelizmente, além do custo astronômico de um programa de governança na escala necessária, as chances são mínimas de realmente alcançar essa transformação na vasta área a ser impactada, dentro do prazo de um mandato presidencial. Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB) têm tomado posições semelhantes ao Lula com relação à BR-319. Portanto, será importante ficar atento a como evoluirão as políticas ambientais durante o próximo governo, independentemente de quem ganhe as eleições.

Philip M. Fearnside é pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)

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